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sábado, 27 de novembro de 2010

"Filme que flerta com arte contemporânea causa incômodo no Festival de Brasília"

ANA PAULA SOUSA

ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA



Durante a projeção de "Os Residentes", na sexta-feira (26) à noite, no Cine Brasília, um espectador gritou: "Volta, Bressane!".

Tratava-se de uma evidente provocação ao jovem diretor que, ao apresentar o filme ao público, disse que seu desejo era oxigenar o cinema brasileiro. A referência a Júlio Bressane era, portanto, a seta mais fácil de ser atirada.

Mas outras setas viriam. O longa-metragem de Tiago Mata Machado, 36 anos, apresentado na terceira noite de competição, causou incômodo no Festival de Brasília.

A ausência de uma narrativa, as referências intelectuais e cinematográficas sobrepostas e o flerte com a arte contemporânea desceram, em boa parte da plateia e da crítica, como um prato indigesto.

Mas há que se admitir: "Os Residentes" não apenas traz uma proposta audiovisual como alcança, em sua montanha-russa de imagens, momentos de grande beleza plástica.

"Existe uma pretensão estética declarada no filme", delimita Machado, que foi crítico de cinema da Folha, trabalha como curador e teve um vídeo selecionado para a Bienal de São Paulo.

"Meu filme é uma manifestação contra a padronização estética e o pragmatismo do cinema brasileiro", prossegue, com o sotaque mineiro dando certa calma a sua fala reflexiva.

"Quando vejo o [José] Padilha falar que o filme dele ["Tropa de Elite"] é político, penso naquele cinema político dos anos 60, que era político no tema, mas reacionário na forma", diz, referindo-se a cineastas como Costa Gavras e Gillo Pontecorvo. "Meu filme pode ser visto como uma crítica a um cinema brasileiro que tenta mostrar que sabe seguir uma estética internacional."
Divulgação
"Os Residentes", de Tiago Mata Machado
Cena do filme "Os Residentes", de Tiago Mata Machado, que causou incômodo em exibição no Festival de Brasília

Durante o debate realizado na manhã deste sábado, no hotel Juscelino Kubitsheck, Machado foi questionado sobre o roteiro (ou falta de), o excesso de influências e suas reais intenções.

Para muitas das perguntas, simplesmente, não havia resposta. "Meu filme tem suas próprias regras, ele está o tempo todo rompendo o tom. Mas hoje impera a mentalidade da linearidade."

Antes do debate, em entrevista à Folha, como se pressentisse o que vinha pela frente, o diretor havia citado a "patrulha da verossimilhança". "Só não aceito que chamem meu filme de hermético", ressaltou. "Meu filme interpela o público."

"Os Residentes", que mostra um grupo ocupando uma casa vazia, procura discutir a própria arte. Os personagens, num manifesto estético, sequestram uma artista plástica. A convivência do grupo serve de pretexto para uma série de jogos.

Há desde um momento em que dois atores têm uma briga de casa, à la Godard dos anos 60, até cenas puramente visuais.

A imagem do caminhão a sugar um montanha de terra do chão ou a cena em que um muro de tijolos é erguido à frente de uma cortina cor-de-laranja são pura videoarte. Recortadas, cairiam como uma luva na Bienal. No Cine Brasília, pareceram intrusas.