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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Panetone

É chegado o fim do ano. E com ele também chegamos ao fim de um processo que se iniciou em outubro do ano passado. Seria mesmo o fim do processo? Tenha a sensação clara e límpida de que as coisas estão começando ainda, de que o nosso ofício – do qual ainda sabemos tão pouco – supera a mesmice e sempre nos atualiza com novos tremores e arrepios. Foi lindo, meninos. Do impossível chegamos enfim ao impossível. Impossível desta vez morno e aconchegante. Hoje temos a condição de administrar um pouco mais de nossos arrepios. Isso é amadurecer.

E ao mesmo tempo estamos tão longes. Neste ano fizemos vinte apresentações de nosso DRAGÃO. E foram nove semanas ininterruptas de trabalho intenso logo na primeira temporada. Foram nove semanas que pareceram nove meses. Muito esforço, muita dedicação, muita dúvida e muitos erros e muitas descobertas. Estamos vivos. Sobrevivemos. E hoje emocionamos e trazemos a cena um pouco daquilo que também nos engole e mastiga.

Que o fim do ano traga ainda mais força e desejo em nossos corações. Que a gente consiga de novo – e mais uma vez – dobrar as diferenças para dançarmos juntos isto que nunca daremos conta de controlar:

dragão 08 - foto de seblen mantovani
Foto de Seblen Mantovani

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

“Diálogo, mais ou menos ágil, com o desequilíbrio geracional”

Eis que a nossa primeira crítica é feita pelo crítico Macksen Luiz, que esteve presente em nossa estreia, no dia 11 de outubro. A opinião do crítico foi postada em seu blog [http://macksenluiz.blogspot.com/] e pode ser conferida abaixo (clique sobre a imagem para vê-la em tamanho maior):

critica macksen 18out copy

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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Depoimentos

Olá, Você

Este espaço do blog é destinado aos que assistiram ao espetáculo COMO CAVALGAR UM DRAGÃO e que desejam deixar por escrito suas impressões sobre a peça. Teatro Inominável é desde já grato pela sua opinião aqui deixada e afirma o quanto ela nos é de extrema importância, justamente, por ser capaz de nos devolver um pouco de nós e, sobretudo, também um pouco sobre você, que nos assiste.


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Como deixar seu depoimento
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Release

logo-documentos

Cinco jovens se reencontram no apartamento de uma amiga em comum, dois meses após o seu suicídio. Novo espetáculo do Teatro Inominável, a peça Como Cavalgar um Dragão, dramaturgia de Diogo Liberano criada em processo colaborativo, fala de uma geração em busca do acerto de contas com uma realidade contraditória. A estreia será no TEMPO_FESTIVAL das Artes, nos dias 17 e 18 de setembro, no Espaço SESC. Em outubro, a montagem estará em cartaz no Teatro Municipal Maria Clara Machado.

Graduado em Direção Teatral pela UFRJ, Diogo Liberano assina a direção ao lado de Flávia Naves, graduada em Artes Cênicas pela UNIRIO e formada como atriz pela Casa de Artes Laranjeiras – CAL. No elenco, estão os atores Dominique Arantes (Andréia), Fred Araújo (Inácio), Marília Misailidis (Rita), Nina Balbi (Cecília) e Vítor Peres (Odilon).

A aposta cenográfica, assinada por Rafael Medeiros e Fernanda Abreu, parte do mote inaugural do projeto, "atravessamentos", para compor o espaço de um apartamento onde as paredes são telas de pintura cruas que evidenciam o universo representacional do espetáculo e, que passam a ser atravessadas pelos atores na evolução da dramaturgia.

O Inominável investiga a produção de uma cena capaz de dar voz à inquietação característica dos tempos atuais. “A intenção é abordar esta geração que, frente a situações extremas como a morte, não se permite ser indiferente. Não se trata de obter respostas, mas de cruzar os extremos”, explicam os diretores.

Criado em 2008, o Teatro Inominável (Adassa Martins + Dan Marins + Diogo Liberano + Flávia Naves + Helena Cantidio + Natássia Vello) vem se destacando no cenário teatral do Rio de Janeiro. Seus dois primeiros espetáculos, realizados de forma independente, continuam em cena: “Não Dois” (2009) do texto argentino Paso de Dos de Eduardo Pavlovsky e “Vazio é o que não falta, Miranda” (2010) da obra Esperando Godot de Samuel Beckett.

Contemplado pelo Fundo de Apoio ao Teatro – FATE, da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, o espetáculo conta com a supervisão de Marina Vianna, atriz e co-autora do espetáculo/filme de Christiane Jatahy, “A Falta que nos move”, importante referência no processo.

SOBRE DIOGO LIBERANO

Graduado em Direção Teatral pela UFRJ, Diogo Liberano vem se destacado como dramaturgo e diretor teatral. Este ano foi selecionado para o Seminario Intensivo de Dramaturgos, promovido pelo Panorama Sur, em Buenos Aires. Como diretor, foi convidado pela Cia do Atores a co-dirigir, ao lado de Cesar Augusto e Susana Ribeiro, o espetáculo “Peças de Encaixar”. Diretor Artístico do Teatro Inominável, dirigiu “Não Dois” (2009) e “Vazio é o que não falta, Miranda” (2010).

SOBRE FLÁVIA NAVES

Graduada em Artes Cênicas pela UNIRIO e formada como atriz pela Casa de Artes Laranjeiras – CAL, nos últimos anos, Flávia Naves vem realizando assistência de direção de diretores como Ana Kfouri (“Senhora dos Afogados”) e Ivan Sugahara (nos espetáculos “A Estupidez”, “Tempo de Solidão” e “Sem Ana”). Também integrante do Teatro Inominável, como atriz, está em “Vazio é o que não falta, Miranda” e agora assume a direção do novo espetáculo da companhia ao lado de Diogo Liberano.

 

SERVIÇO “COMO CAVALGAR UM DRAGÃO”
Classificação etária: 14 anos
Duração: 75 minutos

Temporada no Teatro Municipal Maria Clara Machado
Estreia dia 11 de outubro
Até 7 de dezembro

Terças e quartas, às 21h
Teatro Maria Clara Machado (Planetário da Gávea)
Rua Padre Leonel Franca 240 – Gávea
Informações: (21) 2274-7722
Capacidade: 80 lugares
Bilheteria: terça-feira à quinta-feira a partir das 18h; sextas, sábados e domingos a partir das 15h. Sempre até 21h. Aos domingos até 20h.
Ingressos: R$20 (inteira) R$10 (meia)

domingo, 9 de outubro de 2011

PRIMEIRA TEMPORADA

Nesta terça-feira, 11 de outubro as 21h, o Teatro Inominável entra em cartaz com COMO CAVALGAR UM DRAGÃO. O espetáculo, contemplado pelo Fundo de Apoio ao Teatro – FATE – da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, havia se apresentado duas vezes dentro do TEMPO_FESTIVAL das Artes, em setembro.

DRAGÃO - Estreia

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"História repleta de vínculos passionais"

Matéria publicada no JORNAL DO COMMERCIO, sexta-feira 30 de setembro de 2011, clique sobre a imagem para vê-la maior

terça-feira, 27 de setembro de 2011

EPíLOGO

MADEIRA OCA

Andréia mira a platéia presente. Tem no íntimo uma torrente de palavras, que deixa escorregar.

Andréia - Quando desceram seu corpo, tive a sensação de que eu ia junto ali dentro, algo me apertando e esmagando e eu querendo gritar querendo correr eu querendo sumir ou ceder... Um senhorzinho, vendo o meu desespero, pediu que eu não chorasse tanto. Como não? Era a minha única força. Eu ali descobrindo pela primeira vez que o vazio de que todos falavam, nascia aqui. Meu deus, ela se foi tão concreta, lançada pra baixo do mundo, cheirando a mistério. A Letícia me fez amiga do absurdo. E hoje, eu danço esta dúvida a cada dia, para não ficar rígida, burra, certa demais. Eu danço esse medo para alimentar meus monstros. Para aprender a ser passagem.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

É AMANHÃ!

Finalmente. Depois de tudo, depois de tanto...

Como dói parir. Venho sentindo as contrações do parto há tanto tempo que quase esqueço a alegria do nascimento.

Mas não quero escrever, não quero falar, só quero sentir, só quero poder chorar, só isso.

E abraçar vocês com força, mais isso.

Que venha o Dragão!!

MERDA!!!!!!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Notas sobre a dramaturgia – Oito

faz tempo que não escrevo sobre a nossa dramaturgia. nessa semana, ouvi de marina vianna que nosso processo é o mais textocêntrico de todos. entrei numa crise (rápida, passageira, porém sincera e contundente). a pergunta não é que dramaturgia criamos, mas sim de que maneira chegamos até ela. tenho a clareza absoluta agora de que o nosso drama foi erguido a partir do papel escrito e não necessariamente a partir de ires e vires do corpo ao papel e vice-e-versa. nenhuma problema. o processo é movimento, é erro e tentativa.

não sei porque estou escrevendo isso. temos a nossa estreia dentro do TEMPO_FESTIVAL das Artes no próximo sábado e foi apenas no sábado passado que eu terminei de escrever o texto. de sábado passado (início de setembro, mais precisamente no dia três) até hoje, quinta, muito texto já foi mexido e reescrito. eu, aliás, estou na cozinha da minha casa, tomando um café, enquanto me preparo para reescrever um trecho que espero ser o último até nossa estreia.

mentira. a dramaturgia é e sempre foi movediça. a cena quer entrar e quer se fazer escrita. se foi um processo textocêntrico? talvez por in_experiência, talvez por amadorismo = aquela febra dos que amam com cuidado e excesso de zelo. nenhum problema. respiro. o que ponho aqui escrito é relato sincero e preciso. estamos em tempo. os corpos se movem mais do que nunca ansiosos pelo encontro com o abismo.

chega de poesia. o final da peça escrito. PRÓLOGO (escrita automática) + CENA UM (despedida do ideal) + CENA DOIS (medida da trajetória) + CENA TRÊS (esse mau estar) + CENA QUATRO (rir das marcas) + CENA CINCO (desconhecer-se) + CENA SEIS (não nomear) + EPÍLOGO (profanare). os nomes sempre sintetizando aquilo que depois eu tento expressar por falas, discursos, personagens conflitos e cruzamentos.

enfim, eu queria dizer que eu não sei. que o texto chegou ao fim mas é desde já, desde sempre, coisa morta. que é bom, bonito e seguro. mas que precisa dos corpos, das investidas, das desmedidas, sim, sobretudo das desmedidas. o texto precisa trepidar, ser alvo dos soluços e dos respirares. eu tô tão óbvio. não importa. quis apenas vir até aqui e constatar: o quanto produzimos. o quanto ainda falta para concretizar.

vamos?

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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

alterações dramaturgia

FINAL DA CENA TRÊS

Inácio Rita, fica!

Rita Por que, Inácio, ficar por quê? Pra arranjar um culpado, alguém que possa ter feito com que a Lilla se matasse? Não, eu não fico, Inácio. Hoje é o primeiro dia que a gente se reencontra depois do enterro da Letícia e você não tem ideia do peso que as suas palavras ganham quando saem da sua boca e chegam ao nosso ouvido. Eu não tenho motivo pra ficar.

Inácio Rita, por favor, fica!

Rita Só se você me fizer acreditar que você sabe exatamente o que tá acontecendo aqui dentro, me faz acreditar que você tem a capacidade de abrir essa boca pra dizer alguma coisa realmente sincera e importante. Me faz acreditar agora, Inácio, a hora é agora, eu tô aqui na sua frente, mas não por muito tempo\

 

PARTITURA PRÓLOGO

1. ALMOFADA
2. BLUSA
3. MAIÔ
4. CAIXA
5. LIVROS
6. QUADRO
7. ABAJUR
8. MÓBILE
9. WALKMAN
10. PUFF
11. ALL-STAR
12. GUARDA-ROUPA

Andréia. Um par de sapatilhas brancas número 34; um par de patins pretos com rodinhas roxas número 37; dois pares de All Star, um branco básico e um vermelho de couro, ambos número 37; três almofadas que ficavam sobre a cama 1 (a vermelha, a amarela e a azul); uma blusa do Guaraná Antártica comemorativa da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1998; um vestido quadriculado 3 estilo toalha de mesa; todos os álbuns de fotografias 12 de 1994 até 1999; uma caixa de papelão 4 com todos os calendários da Caixa Econômica Federal desde 1999; uma caixa de papelão com dezesseis VHS de gravações diversas; três livros 5 sobre o Francis Bacon, um deles em inglês; cinco livros do Samuel Beckett; uma reprodução emoldurada do quadro 6 Icarus do Matisse; uma tela riscada com traços de tinta a óleo tentando reproduzir o quadro do Matisse; um abajur lilás 7 com franja que ficava na mesa de cabeceira; um móbile 8 de libélulas pequenininhas que ficava preso na janela; um Walkman 9 velho da Sony; um puff 10 quadrado e amarelo, com rodinhas; e um All  Star 11, o de cano alto de zebrinha número 37 que eu também quero pra mim mas a gente resolve isso depois.

Eu. Um par de All Star 11 cano alto de zebrinha número 37 que a Andréia também quer e que a gente resolve depois; ANDRÉIA ENTRA um par de salto alto verde 10 bebê número 37 ANDRÉIA É TOCADO; um par de sapato marrom trançado a couro número 37; um par de sapato vermelho (o da formatura) número 38; aquela blusa dos Beatles e aquela jaqueta que já estão lá em casa; um guarda-chuva preto; uma caixa de papelão com um baralho da drogaria Pacheco; um diário pequeno em branco; dois cadernos médios em branco; uma canga promocional do jornal O GLOBO; ANDRÉIA SAI e dois quadros 6, um do cavalo e um da menina.

Inácio. Uma casa de dois andares 12 da Barbie que tava desmontada sobre o guarda-roupas; um cavalete de madeira 9 com alturas ajustáveis; quatro gnomos  5 de madeira pintados; três duendes também de madeira, também pintados (sendo que um dos duendes tá sem o braço esquerdo); uma bola de vôlei 4; aquele brinquedo estranho, o Guru do Gugu; um Pense-Bem; um micro system AIWA; uma vitrola pequena sem marca; uma TV SANYO 14’ 6 com VHS embutido, mas sem controle remoto; um DVD player muito velho, sem controle; um LP da Xuxa 1 autografado pela Xuxa; um cd do É o Tchan no Havaí; sete livros do Harry Potter (e mais dois pequenos: um sobre quadribol e outro sobre animais fantásticos); INÁCIO ENTRA uma agenda da Cantão 7 do ano 2000 completamente usada; uma agenda telefônica tradicional 8 e usada, de papel; um pôster do Fidel Castro; um pôster das Spice Girls; três quadros intitulados Homens, Relógios e Da casa pegando fogo; um balde cheio de pincéis (eu não tive saco pra contar quantos, mas todos os pincéis vão ficar pro Inácio); um edredom de joaninha; uma toalha de banho verde musgo 2; um maiô acetinado cor cobre 3; sete calcinhas (eu não vou dizer quais são porque o Inácio foi o único que pegou calcinha); um par de pantufas cabeça de girafa 10; um pijama de flanela com botões na frente; uma camisa escrota Alguém que te ama muito foi a Trancoso e lembrou de você; um casaco da GAP que todo mundo sabe qual é; INÁCIO É TOCADO um óculos Ray-Ban que todo mundo sabe qual é; um Paco Rabanne usado; um Lancaster fechado; uma maleta grande com todas as maquiagens;um par de All Star cano alto de zebrinha número 37 que eu também quero então a gente resolve isso depois; um mapa-astral feito à mão; uma cadeira de praia com listras coloridas; uma foto emoldurada daquele dia no Jardim Botânico; uma caixa de papelão com todas as cartas trocadas com o Conrado; uma foto emoldurada daquele final de semana em Angra; e uma foto emoldurada do dia da nossa festa de formatura. INÁCIO SAI.

Odilon. Um vinil do John Lennon 9; cinco da Nina Simone 5; três CDs do Strokes; cinco da Rita Lee; dois do Los Hermanos, o Los Hermanos e o Bloco do Eu Sozinho; o Circuladô Vivo do Caetano 12; uma edição do Macunaíma do Mário de Andrade; A teus pés da Ana Cristina César; Para viver com poesia do Mário Quintana; Diário de um cucaracha do Henfil; A Gaivota do Tchékhov; dois volumes do Mil Platôs do Deleuze e do Guattari, o volume 1 e o 3, 6 sendo que o 1 ainda tá embrulhado e o 3 tá sem algumas páginas; oito pequenas telas riscadas 4; uma tela média toda pintada de verde; um laptop coberto de adesivos e com a tela trincada; um par de meias 2 cinzas e grossas que tavam sobre a cama; um lençol de solteiro 3 que tava na cama (aquele dos cavalinhos de corrida); um perfume\ 11 Alguém lembra o nome? Daquele sem rótulo, que ela usava pouco? Um vidro de perfume sem rótulo que ninguém sabe o nome e que ela usava pouco; uma garrafa térmica 10 marrom com tampa plástica mordida; um celular velho 7 com o visor estilhaçado; e seis mini-cactos da coleção dos sete mini-cactos que ficavam no parapeito da janela do quarto dela só que um deles deve ter caído\

RITA ENTRA Rita. Uma caixa com as aquarelas; um diário em branco; uma edição d’O Código da Vinci; um DVD Elas cantam Roberto; um porta incenso com guarda-cinza acoplado; um cinzeiro de vidro maciço; uma imagem de barro de São Jorge matando um dragão; uma camiseta de Trancoso que o Inácio também quer então vocês resolvem isso depois; e um par de sapatinhos plásticos e vermelhos sem número que parece ser de alguma boneca.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O BEIJO

Olha as marcas cravadas no meus pulsos, ela disse, eu sei o que você está sentindo, eu compartilho da sua dor, eu sei o que é perder a visão mesmo estando certa que meus olhos continuam a enxergar, eu sei o que é sentir o gosto amargo da saliva escorrer pela boca e encharcar o corpo inteiro, eu também já senti esse bicho estranho que ganha força aqui dentro e te pedi pra voar, as palavras sem esforço saiam da sua boca e ele que ouvia tudo mas nada escutava foi aos poucos se rendendo àquela voz suave que a seus ouvidos chegava na gentileza de uma canção, ele que com esforço hesitava entre soltar ou não soltar os dedos que agarravam o parapeito da janela, cinco dedos apenas agarrados ao cimento branco, a outra mão agarrada à faca que molhada de suor insistia na queda daquele corpo que ainda hesitava, ele que ainda hesitava foi se deixando levar pela boca insistente, e então o beijo, a boca dela nos lábios dele, os lábios dela no pavor dele e ele, surpreendido e embriagado pela faísca invisível do amor, ele agora apenas, o instante que não vingou.


passadão + cena quatro

espaço sesc, 29 de agosto, 09h30/13h
diogo, nina, flávia, vítor, fred, dominique e marília

PRÓLOGO

aposta de utilizar a faixa DRAGZ 2 feita pelo cabelo;
cecília usa um mp3 player;
boa dicção, porém a voz parece baixa (tentar impostar mais);
boa a chegada da andréia (o tempo, a parada ao lado de cecília);
é bom tocar a sujeira no chão, mas talvez não com as mãos e sim com um dos pés;
bom o toque no inácio;
bom o sorriso no “conrado”;
cecília – fechar partitura e ser rigorosa na repetição da mesma;
a trilha também se retira da cena e deixa cecília rendida?
tônus na lista de odilon que não cessa até o fim da lista da rita;

CENA UM

reação de rita ao “né, rita?” de cecília;
bom o “chantagem emocional”;
bom o tirar do casaco, cecília;
ótimo, nina! o esporro no inácio (deu pra ver que não é por conta de um tênis);
andréia entra com o “pára, rita” com um sorriso que parece sobrar;
a coisa da saudade precisa ser mais sincera (inácio e rita);
rita, entrar mais na fala “se quiser eu posso ir ao banheiro”;
cuidado com a agressividade e a finalização do jogo físico entre os dois meninos;
”lembrança pra lilla”, indicar o lenço como se fosse lilla;
”não, aquilo que a gente tinha pra fazer aqui”, falta intenção (ele tá sendo irônico, escroto);
resolver a coisa da pelúcia;

CENA DOIS

meninos, na andança durante o monólogo de odila, serem mais ágeis e práticos, saindo de cena sem ter que conferir nada;
ótimo o solilóquio, apenas atenção ao forçar da emoção e tomar cuidado com as caras e bocas;
boa a risada (podem debochar mais da coisa da beterraba);
meninas, cuidado com o “pseduo-falatório” enquanto odilon e inácio “brigam” sobre o dvd;
”eu não perguntei isso” tá muito gritado, vítor;
bom o choro da rita e boa a reação da cecília;
corte no texto da rita: do calmante falar direto da ligação do caco" (eu entrego o corte);
cecília e andréia precisam ganhar mais a discussão;
”não chora” ainda não funciona;

CENA TRÊS

afetação maior no “é isso” inicial de andréia, talvez a gente deva aumentar o texto dela;
cecília e rita estão ótimas e fortes dentro de suas convicções;
rita entrar mais direta com ”ela me ligou também”;
será que o texto do odilon é todo pra andréia?;
brinde > não estrangular o texto;
SENTA PRA ASSISTIR não é para o público;

CENA QUATRO

bom o engasgar, fred;
rita, bom “de somar todas essas lembranças e montar uma lilla que nunca existiu”;

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domingo, 28 de agosto de 2011

Agradecimentos

Amores,

Mandei pra tamires meus agradecimentos pessoais(família e Seblen),mas queria pensar com vocês aqueles que faremos juntos.Gostaria, por exemplo, de colocar o nome de Aldaci e da outra moça que todo dia de manhã nos ajudavam na limpeza de nossa sala de trabalho.Alguém sabe o nome todo das duas?Quem mais além de Juliano, Marina,Gustavo, Adassa,Veronica,Jarbinhas,não sei o nome de todos que estavam no ensaio aberto...?

Quadro Icarus do Matisse

Composição

Flávia, como foi pedido vou colocar aqui os trechos de texto do Diogo que selecionei para a Composição. Trechos dos textos "Não Despaixonar" e "Farpa" inseridos na trajetória do Dia do Enterro.

"NÃO DESAPAIXONAR"

Impreciso
não se pode de imediato acreditar. Depois os olhos ficando assim confusos, foi natural que eu soubesse me controlar. E dentro, a imagem não parava de bailar./
Veio uma fraqueza por reconhecer-se falível, capaz de deixar escapar. Uma quase resignação por saber - e talvez mesmo aceitar - que sim, muitos amores eu iria perder. Muitos amores para serem amores precisariam se afastar. Restou um lenço me dizendo isso não acaba o seu amor, amor pode ser mesmo eterno./
Eu assim sou alguma coisa que parte. Nos olhos as lágrimas ficaram e dali se perderam em meio a outras ações.
como fosse entretenimento ajuda
um protesto
cara é melhor você ir se acostumando, não quer dizer não chorar, quer dizer apenas que não terás vida suficiente para freiar a morte, será preciso se acostumar, ir se treinando, mas não depaixonar. NÃO DESAPAIXONAR.


"Farpa"
(O cara do café)

Mas, o que é dor agora? A vida se resume em dor. Dor sem faca. Dor sem rasgo nem bala. Em dor tudo termina./
Em seguida, uma a uma, as meias foram deixando os pés que agora estavam despertos, respirando como seres anexos./
O sangue sai. Seja pela porta da farpa recém tirada. Ou pela memória de uma criança abandonada./
Na manhã de um domingo qualquer, o sangue sai como um café expresso. E o que resta é um corpo sujo e frio. E nada há mais.

Lighthouse Family - Forever you and me


Meu texto do programa

Quando nos encontramos a primeira vez, em outubro de 2010, no teatro Glaucio Gil, eu sabia que aquele não era mais um encontro burocrático onde pessoas se reunem para exibir certezas e pagar as contas.Não, aquele era um encontro onde pessoas se buscavam para juntas poder ao menos uma vez arriscar limites,caminhar por incertezas para colher juntos alguma verdade sincera,alguma coisa verdadeiramente pulsante,algo que se quer dizer.Havia uma necessidade imensa de dizer junto e uma vontade enorme de tentar realmente trocar com o outro,usar-se,gastar-se e poder entregar a beleza do nosso jogo juntos para o mundo.Algo como quem arrisca-se a sentir a pontência de estar vivo e estar rodeado de vida.

Começamos pensando em como somos assaltados por atravessamentos.Quais coisas doces e amargas nos atravessam e deixam em nós um rastro,mudando nosso curso em qualquer esquina.Pensamos como mesmo nos lugares mais íntimos,enlatamos nossos afetos em convenções deixando inescrupolusamente a vida escorrer pelos dedos.Pensamos na claustrofobia que transformamos o dia-a-dia.Pensamos como sobram motivos para nos retirar de tudo.E como conhecemos pessoas que nos acompanhavam que se retiraram da vida.Pensamos em poder transitar juntos por isso e profanar o silêncio imposto pelo sentimento inominável desse atravessamento.Pensamos em inventar uma história para contar disso que se viveu,com que se lutou,que nos ultrapassou e exigiu que aceitassemos que há coisas que simplesmente não tem resolução.Pensamos: como seguir depois disso?E pudemos,cada um a sua maneira, olhar para o mundo e ver que sobraram afetos ainda pulsantes,sobraram as lembranças, a possibilidade de se falar delas, poder rir de novo e dançar.Juntos.Para mim especialmente fica a certeza de que a descoberta de nós mesmos e o arriscar apropriar se da existência ainda nos farão experimentar a potência de poder parir galáxias.

Fica aqui para os espectadores o que construímos nessa tentativa de falar um pouco dessa experiência que é estar vivo e dividir a vida juntos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

23

sim eu conto
ensaios atrasos
o número de falas
eu conto mentiras
eu conto
o que poderia ter sido
conto
os cacos
as rimas
os saltos
ele conta os dias
ela aquilo não todo dito
juntos
os cansaços
na frente
contaremos sobre o sono dos copos plásticos em café enternecidos
tudo para
en(23)fim
contar uma história inventada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sacola Plástica

Segue o trecho da Cena Quatro – Rir das Marcas a ser usado nas composições a serem criadas e apresentadas no ensaio de quarta-feira:

Cecília A primeira vez que eu a vi foi inegável o seu sentimento de voo. Era inexplicável a leveza que ela detinha ao riscar no ar qualquer contorno. Naquele dia eu percebi como que as coisas que não se conhecem também podem ser afins. As pessoas cruzando as ruas e calçadas e ela subindo, solitária e abusada. Ventava muito naquela tarde. E nisso ela se enchia de ar e desfilava saciada. Até que chegou ao topo de um prédio. Foi quando eu a vi e pensei na nossa amiga. Só que então o vento ventou mais forte e a sacola plástica foi, enfim, arrastada por um ar sem previsão, feito fosse um grito ou dor sem dono clamando por atenção. O ônibus parado no sinal e eu dentro dele pensando na altura que ela teria se jogado. E se ficou consciente o tempo todo. Eu pensando se o tempo todo incluia também o fim. Será que ela pensou em quem? O ônibus arrancou. Olhei através da janela e a vi despencar no meio da multidão. Feito um corpo que sobe até não mais poder, até se convencer de que realmente é preciso cair. E desde então eu não sei dizer pra onde ela foi, porque meu ônibus seguiu e agora eu tô aqui, parada com vocês, exatamente neste ponto\

domingo, 21 de agosto de 2011

EPÍLOGO

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6. NÃO NOMEAR

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5. DESCONHECER-SE

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4. RIR DAS MARCAS

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C'est Fini

ReCONSTITUIÇÃO DO CRIME

Eu e Ameida montando a sequência dos acontecimentos finais.

sábado, 20 de agosto de 2011

Divulgação


Marília Misailidis + Fred Araújo + Dominique Arantes + Vítor Peres + Nina Balbi
  

passadão

PRÓLOGO – 12h24

um doce início, nina. foi preciso.

é também preciso o tempo de relação (em silêncio) com andréia e seu corpo.

dois quadros andréia sai lenta e cecília gagueja dois quadros o do cavalo e o da menina: ótimo receio de perder, da falta.

dominique talvez possa se afetar bem pouquinho aos toques, com um ligeiro sorriso, ligeiro tremer, arrepio.

o que falta é só o corpo dela, a presença continua, volátil.

a lista de inácio inaugura um tempo outro.

inácio chega de costas. lento, cecília o toca.

é bom isso fred de enquanto estiver sendo tocado estar olhando o vazio do espaço.

a lista do odilon começa com inácio saindo, talvez por isso certa irritação, também precisa, nina.

alguém lembra o nome do perfume, aquele sem rótulo que a letícia usava pouco?

rita entra meio sorridente, brincando com os gestos de cecíla – elas se encontram.

rita – cecília tem o rosto da amiga nas mãos.

CENA UM – 12h33

ótimo, fred, gastando o jogo nas falas que podem explodir ainda mais a situação.

ótimo, nina, usar o jogo na fala da lista.

gosto da rita quase estática reagindo com as mãos.

ótimo, ótimo, ótimo, maravilhoso! diz cecília sobre andréia sair da divisão.

rita sai, odilon entra.

a colisão entre odila e andréia não funciona. vocês ou colidem ou abandonam a ideia.

odilon gasta um bom tempo observando a chatice

interessante a entrada de rita e andréia, com sorriso no rosto, andréia só tá cansada desse papo

isso faz a implicância com o odilon ficar mais clara

o gaguejar é ótimo, dô, isso é o que você tá querendo…

bom o lilla, lilla, piada de mau gosto

boa a discussão de relação

pombinho odilon pombinho andréia

boa a briga!

cecília cheira o lenço

a recepção ao lenço que chega ainda não rola

bom demais o A GENTE TERMINOU de andréia e odilon

mto boa discussão entre andréia e odilon sobre a tela

rita no chão

CENA DOIS

ótimo, odila

bom os comentários de odilon, RESTAURANTE

ótimo diálogo odilon andréia

BEIJO NA BOCA, ela também beijou na boca se é isso que tá faltando

discussão dvd tem que dosar, mas rola

bom o jogo, rita, de interferência no papo odilon-inácio

boa, nina, as repetições como a grossa, como a grossa, isso não te diz nada, que grande resolução a sua, perfeito, brilhante

CENA TRÊS – 12h57

fred, boa evolução no ganhar

boa, dô – desde o início soltar o horror e a raiva por ser colocada nesse lugar

bom o porquinho, a progressão da epifania > acho q é preciso transbordar

papo truncado a mini-discussão tira a mão da minha frente é ótimo

ótimo > aceleração eu não tenho obrigação nenhuma

não é exclusividade/é sim/não é…

boa, vítor, a repetição que que vc fez com a lilla

ótimo, dô, a aproximação com andréia e a fala de andréia silenciosa para, tentando afastá-lo

simultaneidade das reação inácio cecília e rita <<

boa, rita, precisa sim!!! boa argumentação!!! te ligou, pediu um beijo, despedida!

TODO MUNDO AQUI SABE QUE A LETÍCIA TINHA MANIA DE DAR BEIJO

andréia, se afetar com a confissão da despedida de andréia

UM BRINDE >>> BOA! DÁ O START PRA TUDO

FALA ANDRÉIA

cadê a afetação dos amigos?

boa, cecília, segurar rita

rita sai, odilon sai, rita volta odilon fica lá dentro

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CARTA DA SINCERIDADE

"É sempre difícil começar uma carta assim como esta. Sabe o que é difícil? Dizer a verdade. Eu me acostumei a substituir a verdade pelo correto. Pouco importa que 1 + 1 = 2. Importa o que isso significa. 1 + 1 = 2, eis uma frase correta, mas ela é tão sem verdade quanto a nossa existência conformada. 1 + 1 =2 é uma frase vazia. A verdade nunca é vazia. Ela está sempre se intrometendo em nossas vidas. E nós estamos sempre fugindo dela. Isso é covardia. Nossa corretude é covardia, é prorrogação.

Estamos adiando a nossa vida. Adiaremos ela eternamente até que ela não possa mais acontecer. Para que então, impossibilitados pelo nosso imobilismo, declaremos satisfeitos que agora não dá mais. Nada mais a ser feito. Não deu.

Como não deu?

Estou farto. Farto dessa falsidade entranhada. Farto do seu olhar de cúmplice. Farto da nossa covardia. Farto de tanta decadência.

Por que não deu?

Escrever agora é como tomar um banho de sinceridade. Sabe, a gente precisa encarar de frente as coisas. Deixar o óbvio falar por si próprio. A gente tomou o caminho errado. O caminho do medo. O caminho do vício. O caminho da covardia. E nem eu nem você queremos consertar isso. Nos tornamos a nossa própria repetição. Como loucos, esperamos mudanças fazendo sempre a mesma coisa. As coisas não vão mudar.

As coisas tem que mudar.

E isso não é de graça. Não é receita pronta. Não é conforto. às vezes parece que você só quer conforto.

Cansei de esperar por você e seus amigos. Essa gente é tudo hipóteses. Procrastinadores.

Então decidi mudar por mim mesmo. Ter a coragem de ver que o mundo não se curvará aos anseios inertes que ensaiamos. Basta admitir isso. E não vou explicar as coisas aqui, isso ninguém precisa dizer.
Mas o que é importante é que entre ontem e hoje alguma coisa se perdeu. Lembra que a gente podia ficar horas imersos um no outro. Fechados em nossos mundos tinhamos acesso a todo e qualquer mundo. Lembra, como a gente se mergulhava? Como o mundo passava lento lento e distante?

Mas o mundo sempre esteve lá.

Essa é a grande diferença. Você queria esquecer. Eu queria lembrar. É o meu caminho. Eu sempre quis que você visse. Enxergasse. Mas os olhos não bastam. E eu te mostrei. Você sempre foi mais além e isso me fascinava. Bastava um leve princípio, você tinha em si tudo que precisava para criar. E você viu tudo. Mas ver não é suficiente.

Eu queria levar você junto.

Nós montamos o melhor dos mundos. Um mundo verdadeiramente nosso. Mas sempre faltou uma coisa. Amar esse mundo. Nós paramos um estágio antes. Antes do mundo virar mundo. Antes da existência.

Não existe amor ao impossível.

Sabe, antes de voltar para casa eu lí uma frase num muro:

“ Se não você, então quem?
se não agora, então quando?”

Ver é insuficiente,


Conrado"


Carta escrita para Letícia, a nossa Lilla, pelo meu amigo Conrado Costa. Linda e intensa contribuição para o nosso processo.

ensaio 73

16/08:11, unirio, sala 604
vítor, dominique, fred, marília, flávia e diogo

nina não pôde vir. eu cheguei um pouco atrasado. eles estão jogando o PANO. em seguida, trabalharemos pedaços do primeiro ato = prólogo + cena um + cena dois + cena três. o pano hoje é laranja. diferente. tem um peso outro.

trabalhos em separado:

MARÍLIA E SEU PEQUENO SOLILÓQUIO
DIÁLOGOS ODILON + ANDRÉIA
FALAS SOLTAS DA ANDRÉIA
EMBATE ODILON + INÁCIO
SOLILÓQUIO ODILON
FINAL CENA 3 COM RITA E INÁCIO

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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Basilisco. Ou. Alucinação Crítica.


A ignorância da juventude
me dói
todas as vezes que olho o meu braço
e vejo braço
e não tempo

Dói em mim toda vez que eu passo
e o que resta é um contorno confuso
fosse tudo na vida apenas forma
de um pincel - inescrúpulo

Dói muito em mim quando a lembrança se perde
não por ter sido esquecida
por ser lembrada feito falsa prece
lembrança muda sem voz
que eu assino fosse minha
mas esperto ao dissimular
que lembrança não fala
lembrança pode apenas
- agora -
voar

Dói muito alguma incongruência
de olhar o túmulo e pasmar a face
como se virando os olhos
pudesse atuar - doer

Resta o inevitável, eu sei
mas pesa a facilidade
de nomear a vida de destino impossível
de combinação de cores
de algo assim tão divino
que me escapa o controle
que me escapa o cuidado
e o amor devotado

Dói porque destruir é fácil
E como se faz então um recompor?

Cacos.

Resta um vazio, uma azia
um desespero tímido que se desespera em cada esquina
em cada altura nova
em cada rosto de menina
que me cruza
e me diz
não sou eu
não mais

Dizer isso tudo agora?

Do que adianta?

E do que adiantaria não fosse agora?

Quando as coisas que faltam me devoram
quando as dúvidas contra o não avassalam a razão
Um pitaco
Um pincel
Que silêncio é esse que precisa ser dito?

Que dor precisa ser comunicada?
Com qual intuito?
Com qual intuito usamos o ser
e seguimos adiante,
sem marcas
sem crescer?

Dói ver o tempo convertido em relógio
dói por não querer braços vertendo sangue
peitos jorrando dor
não é isso
não é tão cruel
é dor que converte em escuta
é dor que me lança ao céu
e preenche a vaguidão do meu olhar
- insistente -
de você

No fundo resta algum sentido sentido
algum resquício seu aqui comigo
que me traga
que me acorda
esta noite novamente
movimentado
querendo abrir a janela para dentro da parede do quarto.

Sufoco.
Debato.
Artifico.

Não posso voltar.
Não sobrevivo a este lugar
não a estas pessoas
não posso pensar em olhar
porque consome dentro de mim uma raiva
sem direção
sem destino
raiva minha é dor
dor incompreendida
é perdição,
do tempo
e da pele

eu fico.
eu sobro.
eu deixo doer.

Inconseqüencia: não é não saber o destino.
É simplesmente a ele se fuder
ainda que carregue consigo alguns outros corpos mal se faça o amanhacer.

É sim Basil disfarçado
é narcísio debochado
é qualquer coisa que juventuda em tudo
e não avança
não evolui
nem sequer pede pelo parar

É nova e sempremente um se enganar

Resto.
Sozinho.
Especulo.
Indivino.

Dentro
eu sei
há uma dor - sim
incapaz de ser dita
incapaz de ser escrita
incapaz de ser pintada
incapaz de não ser
eterna.

Nada aqui é você, afinal
Tudo está assim justamente porque não é você.


FONTE: http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com/2009/02/basilisco-ou-alucinacao-critica.html
  

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Prescrição

Um atravessar deixa uma marca. Os amigos entram no apartamento da amiga Letícia com um objetivo: dividir os pertences dela.
Terminada essa etapa eles podem seguir, sim, podem, cada um pra sua casa carregando consigo os objetos escolhidos. Mas....
Não saem, não se vão. Ao cumprirem a tarefa solicitada algo ficou insuficiente, mas afinal, "o que é isso que nos tomou de assalto e que está nos engolindo? Porque estamos nos ferindo, nos agredindo quando poderíamos nos amar, nos tocar, nos tranqüilizar, nos entender?”
Quando a incompreensão do que está se passando ali dentro adquire a sua forma mais extrema e agressiva um dos amigos anuncia o ato radical que acabara de fazer: “eu acabei de trancar a porta e engolir a chave desse apartamento”.
Está feito.
Agora eles estão unidos sem possibilidade de dispersão, agora eles terão que se agüentar até que reúnam forças suficientes para abrir a porta e seguir, eles ali trancados exigindo do tempo uma pausa, uma parada, exigindo da vida um descanso, uma trégua, para que se compreenda minimamente onde cada um está dentro dessa história e onde cada um irá depois dessa narrativa. Eles precisam desse assentar, desse calar da boca e fechar da porta para que possam se olhar novamente depois do fato que inevitavelmente modificou rostos e nele desenhou traços. É impossível passar por um atravessamento sem ter o corpo por ele marcado.

Van Gogh

“Um dia eu dormi sentindo a dor da perda, a perda de um amor. Sonhei com as árvores e o céu de Van Gogh, sonhei com aquela paisagem embaçada, borrada, como se dedos sujos de tinta tivessem arranhado toda a beleza da paisagem que eu via.
Acordei assustada e com um medo pavoroso de olhar pela janela, medo de olhar as folhas, as árvores, as nuvens e só encontrar a tinta borrada no meu sonho, mas não foi isso que aconteceu, pela janela as folhas, as árvores e as nuvens ainda eram folhas, árvores e nuvens.
Suspirei, um longo suspiro de alívio e me lembro de agradecer com todas as minhas forças por não ter morrido em vida.

Acho que a Lilla acordou, olhou pro céu e só viu borrão de tinta.”

72

Ensaio 72. Unirio. sala 604.

Cecília e Rita

(Rita mão na cintura, Cecília a imita)

(Rita mão no cabelo, Cecília a imita)

Rita, perdi meu brinco

é ruim perder coisas né? Um dia desses eu também perdi uma coisa

uma amiga?

(risos)

eu tô cansada

eu sei

essa sensação de ter perdido alguma coisa, já faz dois meses, eu tô cansada

Andréia e Inácio

você tá estranho

(escutam e observam os ruídos no espaço)

(Vão se aproximando os corpos se tocam, eles se abraçam e começam a dançar, a dança vai ficando agressiva, eles giram rápido, muito rápido, rápido demais, Andréia começa a chorar, eles param e se abraçam)

Eu podia ter estado lá pra segurar ela, a gente podia ter estado lá

Eu te seguro se você quiser

Eu quero te pedir um favor, não me deixa mais de cinco segundos sozinho e não fica mais de um braço distante de mim

Inácio e Odilon

Se tocam de olhos fechados

Andréia e Inácio

O que vc tá fazendo?

lembrando...

Aqui tinha a tv, aqui duas almofadas grandes, ali o abajur

(Andréia segue recordando o que havia no espaço e com FITA CREPE reconstitui os objetos)

o tapete aqui, mas não vou fazer o tapete

Andréia e Cecília

para com isso vc tá acabando com a fita crepe

não pula no sofá Cecília

pulo sim

(as duas pulam juntas no sofá feito de FITA CREPE, pulam muito até cansarem)

saem do sofá

quer fazer um climinha? liga o abajur

(Andréia deita em uma das “almofadas”)

Cecília liga a tv?

Andréia eu queria conversar....fala do dia com a lilla, fala do beijo

ela falou que a gente precisava beijar outras bocas, falou que não era nada, mas que a gente precisava se abrir, eu e Odilon, eu fiquei bem irritada

a gente falou de outras coisas

eu falei ainda tô chateada

ela falou para

eu falei não consigo

ela falou para

eu falei vou tentar

a gente se despediu, ela fez questão de me levar na porta

Odilon e Cecília

Oi

sua braguilha tá aberta

tudo bem?

tudo bem

Cecília, você tem uma cicatriz aqui na boca eu nunca tinha visto, o que foi?

olha, olha a minha cara, parece uma massinha branca

(eles fazem careta)

Cecília, Inácio, Rita, Andréia e Odilon

Cecília, com quantos anos a Lilla perdeu a virgindade?

15

Errou, foi com 13, com 15 ela fez o aborto. Vai levar torta na cara!

calma aí, a gente precisa de outra pessoa pra dizer se é ou não verdade

Rita, com quantos anos a lilla perdeu a virgindade?

com 16

não

Andréia, com quantos anos a lilla perdeu a virgindade?

com 15

não foi

foi sim

e você Andréia?

com 15, perdi a virgindade com 15

você e a Lilla perderam a virgindade juntas? Hummmm

Inácio para de fantasiar, tá vendo muito filme pornô

eu só falo porque gosto muito de você Rita

eu não sei o que dizer Cecília, é difícil dá a sensação que você vai achar ridículo

eu não vou achar ridículo

as vezes eu tenho a vontade de tentar outras coisas, fazer outras coisas

outras coisas como? Tipo ir pro Egito?

É. Vamos pro Egito? Todo mundo?

(cupcake)

se pegar fogo a gente morre porque não tem como sair daqui

Odilon me dá

não você já comeu

você tá com o dente sujo

você tá com a cara suja

isso aqui tá muito sujo tia Anita vai ficar puta

olha o guru, ele morreu

Será que se forçar o vômito a chave sai?

(Cecília começa a ler a carta da lilla em primeira pessoa, Andréia toma a carta da mão dela e continua a leitura também em primeira pessoa, Rita toma a carta da Andréia e continua a leitura agora em terceira pessoa.)

domingo, 14 de agosto de 2011

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada nos braços,
que rio e danço e inverto exclamações alegres.
Porque a ausêcia, esta ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade


Com o pensamento em Ana Cristina.

Para Andréia.



As três almofadas que ficavam na cama da Lila pode ficar.

sábado, 13 de agosto de 2011

71

Ensaio de número 71, Unirio, sala 604.

Composição das cenas 4, 5 e 6.

Inácio e Andréia

espalham objetos pela sala
Cantam juntos música da Xuxa "bola bola que rima com cola..."
Inácio tenta dizer para Andréia o que lhe aflige. O que escutamos são apenas tentativas de dizer sempre abortadas pela incapacidade de expressar em palavras o que se sente.
O que vemos é o corpo conseguindo dizer o que as palavras não conseguem, gestos agudos, precisos, repetitivos. Andréia consegue aos poucos traduzir o que vê, Inácio aos poucos se acalma, eles agradece, ela agradece, eles se vão.
curioso como alguns gestos do Inácio pareciam com os da Andréia....

Cecília e Odilon

Eles se olham, querem se encarar mas não conseguem, Cecília tenta fazer com que Odilon a abrace, ele não cede ao seu apelo, ela então pula em cima dele, aflita e desesperada começa a falar da altura do prédio, de como é alto, de como a Lilla se jogou de muito alto, ela então suplica para que Odilon a segure porque não quer cair, não quer despencar dali de cima, ele não cede, ela pergunta porque, porque o Odilon segura a Rita, a Andréia e até o Inácio mas não a segura, ele então finalmente cede, a agarra com força e não a deixa cair, ele pergunta de está bem assim, ela responde que sim, se abraçam e se vão.

Rita e Inácio

Inácio e Rita na sala. Inácio tem em mãos um par de meias, cada mão segura um par, com delicadeza e suavidade brinca com as meias como se estas caminhassem pelo espaço, passo a passo as meias desfilam. Rita observa, Inácio levanta as meias até o mais alto que seu braço alcança, em seguida solta as meias que caem no chão.
Rita e Inácio colocam as meias nos pés e percorrem o espaço deslizando os pés calçados. Marília sobe em cima de Inácio e logo em seguida desmancha-se no chão. Inácio toca seu corpo como se quisesse faze-la reagir, como se não a quisesse morta. Rita se ergue abraça Inácio, eles agarram o corpo um do outro, Rita soluça e chora, com esforço se desprendem um do outro, agora estão ligados por uma mão apenas, não querem se desprender totalmente, não querem, o esforço é inútil, aogra apenas um dedo os une, rita soluça, chora e ri, os dedos finalmente se libertam, eles se olham e se vão.

Andréia e Odilon

Andréia diz não quere ter certeza de felicidade
Odilon a beija, e mais uma vez a beija e mais outra e mais outra.
Andréia diz não querer ter certeza de felicicade, não agora, não nesse momento.

Cecília e Rita

Rita atende o telefonema de Caco, desmente o que havia dito pra ele, diz que está no apartamento da amiga morta com os amiguinhos que ele não gosta, diz que não vai sair, diz que não pode sair porque o Inácio trancou a porta do apartamento e engoliu a chave. Não precisa de bombeiro, eu quero ficar aqui.
Cecília tenta ajudar, Rita a repele, Cecília fica puta, Rita idem.
Cecília diz não querer ser amiga de uma escrava
Rita diz que as coisas não são simples assim.

A força das palavras e das imagens acima conseguem traduzir o que eu não conseguiria dizer. Estou encantada, apaixonada, inauguramos um espaço ainda mais íntimo, ainda mais intenso, estamos pegando fogo e isso é imenso.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Eu tô com medo de ir embora, medo de sair.

Eu tô com medo de ir embora, medo de sair.

Desculpa, essa fala não é minha. Eu não tô com medo. Eu tô com uma coragem escrota de ser grande. Eu estou de fato decidida sobre isso. Eu não tô com medo de dar tchau para vocês. Eu tenho sido tudo aqui, da mesma forma que lá fora. Eu vou continuar a tremer quando fico nervosa, ou quando ralo beterraba. Essa é minha maneira agora. Eu não vou sorrir mais tantas vezes ao dia, assim como não sorri muito nesse nosso encontro. É a sinceridade que posso me dar. Eu não tenho medo de ir embora, mesmo. E acreditem, porque tenho certeza do que são vocês em mim. Tenho certeza. Eu tô inteira nessa sala, ou na cozinha, ou no quarto. Eu não tô com medo de ir embora, porque decidi chamar vocês para um jantar quinzenal lá em casa, e sei que farão esforço para aparecer. E sei que podem não aparecer e eu jantar olhando para a parede branca.   Eu não to com medo, porque meu medo se encerrou à três falas atrás. Desculpa, eu cresci. Eu acho. Eu acho que tô descobrindo como me tornar aquilo que sou, sabe? Eu queria sim, poder ter nossos abraços e gritos e choros compartilhados com mais frequência. Queria muito. Mas também, aprendi sobre essa ausência. E acho legal. Quando digo que me apaixonei pela idéia que nem tudo daria certo para mim, estou tentando dizer que eu me virei em 180 graus, e gostei da idéia. Gostei de me relacionar com a impossibilidade de certezas. Eu não to com medo porque eu tenho certeza que nós não vamos nos perder uns dos outros.

Posso estar falando assim para me proteger do meu medo. Não sei. É possível. Eu tenho andado um pouso desconfiada de tudo mesmo.  Sobretudo do fato de não ter medo de cruzar a porta. Aquela porta ali diz algo sobre crescer, não há medo nisso. Eu fui sincera aqui, assim como tenho sido com os meninos do restaurante.  Mesmo que eu prefira ralar cebola para chorar, mesmo que eu chore até com as ervilhas. E daí? Isso é bom né? Estou pensando sobre o medo de sair daqui. Queria ter uma resposta. Talvez tenha algo a ver com amar. Com amar tanto esse encontro, esses corpos, esses sorrisos. Eu quero olhar para a gente assim misturados. Porque eu acho que é a única possibilidade de conseguir dizer algo sobre amor. É quando eu seguro na mão de um de vocês. Não tem grito entalado na garganta, não tem fingimento, não tem necessidade de que entendam meu grito lá fora. Eu grito porque meu estômago pede, e não preciso explicar para ninguém. É sobre ser. Eu tenho medo de ter certeza de muitas coisas, eu quero levar bandas. Sabe? E aí eu vou rir. Ou chorar. Eu tô muito. Mesmo. Eu não tô com medo de esquecer a cor do tapete, eu posso. Eu posso daqui a dois meses não lembrar das almofadas amarela, azul  e vermelha. Mentira. Tem coisas que são impossíveis. Eu estou tentando falar sobre o medo de atravessar a porta. Não to encontrando ele. Eu quero atravessar a porta. Por favor venham comigo. Queria que todo mundo pudesse atravessar, mas compreendo os tempos. É tão bom respirar o cheiro da gente aqui, misturados. Parece único. É único. Nossa! Entendi! Eu tenho medo de ir e deixá-los tacados nesse chão.  É sobre isso meu  medo. Sobre a impossibilidade de deixar qualquer um de vocês aqui, mesmo que com sorriso no rosto. Não posso. Eu só vou partir quando só aqui restar a tela que não tá pintada, em branco, e a pelúcia. Vocês eu não deixo. Medo sempre tem a ver com amor? Com amar demais?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu não estou com medo e ir embora, eu não estou com medo de sair daqui. Por favor, nao acreditem em mim.

Eu não tenho medo de sair daqui. Nenhum, eu não tenho nenhum medo. Eu tenho medo de não ter medo de sair daqui.
Eu não tenho medo do mundo, do ritmo do mundo, do ritmo de maquina do mundo. Nenhum medo da frieza de metal das ruas do mundo. Nenhum.
Eu não tenho medo de precisar ser de ferro, de precisar fingir ser de ferro. Não tenho medo de fingir e acabar acreditando e, depois, muitos anos depois, perceber eu parei aqui, hoje, aqui, neste rompante de sinceridade. Não tenho medo de perder minha vida com mentiras, com afetações mesquinhas de gente de ferro. De gastar todo o tempo maquiando minhas imperfeições e chegar no final da festa, com as bolas estouradas e copos vazios, e só o resquício das poucas horas anteriores. Não tenho medo de acordar para o eco de ontem. De restar sozinha no eco do que eu não fui, porque eu não tive medo de desaparecer completamente debaixo de tanta maquiagem.  Não tenho, de fato, não tenho.
Eu não tenho medo de sair daqui e então começar a correr do buraco que me segue. De não poder mais olhar pra trás porque, quanto mais eu ando cega, maior a queda na perigosa lucidez: a distancia para frente é equivalente a distancia de cima para baixo, quando esse furo aqui, esse furo de agora, é o chão para o corpo que vem de cima. Eu não tenho. Eu não sei. Eu estou confusa. Eu não sei. Eu não tenho.
Não tenho medo  de dizer:  “sim, está tudo bem”. E sorrir. E tampouco, e olha bem, tampouco de falar que “não, não está tudo bem. A morte, ela existe, a falha existe, estou a poucos metros de falhar novamente, e erro, minha gnte, o erro é o lugar da respiração”, dizer tudo isso do alto do pedestal da sabedoria, e seguir mentirosa, enganando os tropeços, guardando os soluços, dissimulando a dor, mostrando a dor como um estandarte de poeta. Não tenho medo transformar isso tudo em mercadoria, de vender meu coração pra comprar base e pó de arroz, e cinta e salto alto, e comprar uma rigidez de capa de revista.
Não tenho medo de ser fraca e acabar transformando a memória da Lilla em plástico, a memória de vocês em plástico, e amizade em alguma coisa domesticável, vendável. “Que tipo de suicídio define a sua personalidade?”
Não tenho medo preferir manter distancia do vazio, pra fantasiar o vazio, pra preencher o vazio com horas de televisão, ou com cinco diplomas internacionais, de preencher o vazio com lixo.  De nunca mais conseguir tocar no vazio: Essa estufa. Não tenho medo de vetar a entrada de oxigênio nessa estufa. De matar vocês todos como plantas sem sol, sem espaço, sem ar. Não tenho medo de esquecer da gargalhada da Letícia e de como eu não podia apenas deixá-la simplesmente pelo fato dela não acreditar na minhas mentiras, nas minhas invenções de coragem, na minha falta de medo.
Eu não tenho medo de me tornar tudo isso que detesto. De nunca mais conseguir desembaçar a vista, viver nessa solidão confusa, esfumaçada, enjoada, com cheiro de cheddar. O mínimo medo. Nada nada.   
  

que seja como uma revolução onde não mais o dragão comande o corpo, mas que o corpo cavalgue o dragão.

Eu to com medo porque aqui pelo menos eu me iludo em dividir a verdade por cinco e anestesiar dor. Eu to com medo de sair porque descubro a vontade de não anestesiar a dor e viver de verdade aquilo entre nós cinco. To com medo de ir embora porque sei que um encontro entre os cinco, do jeito que as coisas vão, pode não acontecer novamente. Provavelmente vai acontecer, mas esse é único e na nossa próxima reunião sei que vamos estar diferentes. Talvez pra sobreviver vamos inventar algum "modo" de nos enganar e levar a vida. Eu to com medo mesmo de não estar aaqui porque eles são os únicos amigos meus que tão repletos do mesmo vazio. Qualquer outra pessoa não compatilharia algo tão doído sem conhecer a causa. Eu quero ficar ali porque quero que a gente encontre sem truques uma maneira de seguir. To com medo de sair e a gente só ter chegado no blablabla. Eu to com medo de ir embora sem chegar num lugar em conjunto, mesmo que esse lugar seja doloroso como tá mas que seja um sítio saudavel, que seja como uma revolução onde não mais o dragão comande o corpo, mas que o corpo cavalgue o dragão. Eu to com medo de sair por causa disso. To com medo de sair daqui e me destruir em alguma hora. Eu to com medo de ir embora. Enquanto existir esse medo tarei aqui, porque agora a imposição não basta. Não vou mais desistir. Não vou deixar de olhar no olho de cada um deles. To com medo de sair daqui por isso to buscando essa consciencia mesmo diante do impossivel. Mesmo que a consciencia seja só um pano voando que me faz sentir que viver vale a pena. Eu não quero ir embora porque sei que é possível continuarmos mesmo duvidando disso. Eu não quero porque quero resolver com cada um deles e provar a falta de resolução que por alguns momentos me parece com um dragao dentro do meu corpo. Quero ficar ali pra dividir um momento com eles que são companheiros de uma mesma situção. Mas to com medo de ir embora e pela voracidade do que acontece conosco não conseguirmos nos acompanhar. Não quero ser mais um torto que joga contra mim. Eu to com medo de ir embora e não conseguir ver a beleza de um dia de sol onde as nuvens passeiam pelo ar, pois sei que se feliz eu até suspeito que é a Lila por ali. Eu to com medo sim. To com medo de nao me acostumar com o que tá e o que nao ta aqui.

Eu tô

com medo de ir embora,medo de sair daqui.

Antes de entrar eu estava na companhia de outras cinco pessoas.Nosso grupo aparentemente estável era o lugar    
que eu conhecia para me recarregar,para me fortalecer antes de voltar ao embate incansável com o mundo e seus modos e manias. Nos encontrávamos nessa sala de TV para respirar,rir,beijar,cantar,imitar lagarto. Em algum momento pensei que a vida era isso.Pensei que eramos eternos e tudo era pra sempre.

Hoje tenho medo de sair porque sei que quando passar pela porta terei que aceitar a finitude e a instabilidade de todas as coisas.E não sei se dou conta disso sem aquele grupo,sem a fé de que existe um lugar indestrutível,seguro e eterno.Não sei se tenho potencia suficiente em mim para dar conta da inconstância e fragilidade do mundo.Tenho medo de nunca mais ter a mesma doçura e generosidade.Tenho medo de endurecer,secar.Medo de achar que a Lilla tinha razão.Tenho medo de não conseguir achar aquilo que me fazia bem em nosso encontro dentro de mim e de repente ficar congelada ao lado das árvores na calçada.Tenho medo de nos tornarmos estranhos uns para os outros quando atravessarmos aquela porta e ter que lidar com uma amizade que foi linda e agora é só memória.

Tenho medo de não conseguir ver e aceitar a força,beleza e instabilidade em mim e ser apenas tragada pela gravidade.      

LISTA de ACONTECIMENTOS FINAIS

Seguem abaixo possíveis acontecimentos para desenvolvimento nas cenas quatro, cinco e seis do espetáculo:

ESGOTAMENTO PÓS-CENA 3;

DIÁLOGO ANDRÉIA E ODILON: sobre o beijo, sobre "a gente terminou";

DIÁLOGO CECÍLIA E RITA: sobre altura, sobre a sala, os móveis, sobre a coragem e/ou desespero de lilla, diálogo sobre se você quer ser minha melhor amiga;

LEMBRANÇA DA LILLA: sobre a pinta na coxa, sobre o repositor de leite do supermercado, sobre a festa e a bolsinha cheia de cacarecos;

DIÁLOGO INÁCIO E ALL-STAR CANO ALTO DE ZEBRINHA: sobre se sentir incapaz de dar conta do convite feito pelos amigos, sobre não conseguir ser outra coisa, sobre se reconhecer vencido e incapaz de aceitar toda essa instabilidade;

RITA E CACO: sobre não querer ir embora, sobre estar na casa da amiga suicida, sobre estar com os amigos, sobre foda-se!;

A CARTA: sobre quando encontram a carta deixada pela amiga;

O GURU DO GUGU: sobre o recurso encontrado para brincar com o sentido, sobre perguntas lançadas ao guru sobre tudo isso, sobre perder a importância de alguma resposta;

CUPCAKE: sobre a possibilidade de comemorar alguma coisa, um desaniversário, a morte, a vida, qualquer coisa, sobre a possibilidade de usar as velas do último aniversário de lilla, encontradas, sobre a possibilidade de adoçar a boca e aliviar o segundo;

CECÍLIA E A NOTÍCIA DE JORNAL: que a fez lembrar dos amigos, fala de um ato de resistência de um grupo de seis jovens contra a demolição de um teatro no rio de janeiro que termina com a morte dos seis, fala de como o jornal anunciou tudo isso, fala que a fez se lembrar dos seis amigos;

O JOGO DO LENÇO: que todo mundo sabe qual é.

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composições de hoje











'eu tô com medo de ir embora, eu tô com medo de sair daqui'

porque aqui eu posso gritar, apontar o dedo, bater, ser mesquinho, grosseiro, chorar, culpar, fazer sofrer, fazer chorar, machucar, debochar.. enfim, aqui o meu dragão pode soltar as suas baforadas porque estou entre amigos, amigos estes que têm conhecimento de uma mesma causa. uma mesma causa mortis. amigos que também tentam domesticar um animal selvagem. animal selvagem este que não caberia num quarto e sala, imagina dentro de corpos tão franzinos ?

você me perdoa agora e desconsidera tudo que acabei de falar porque há 2 minutos atrás quem me pediu perdão foi você. eu acabei de te segurar quando você perdeu a força nas pernas. a gente divide por 5 a falha na tentativa de seguir, de ficar em pé. somos 5 atos falhos. lá fora tem a preocupação com o outro, com normas e sociedade e educação e boas maneiras.

tenho trocado o bom-dia pelo vai tomar no cú. aqui os meus amigos acabam entendendo. lá fora, o meu porteiro diz que eu sou uma bicha escrota.

...

Sabado, na Uni-Rio, foi curioso.
Eu, com olhos de menino, olhava surpreso, boquiaberto, com a ingenuidade e o desespero de querer ver tudo, perceber cada detalhe, não perder uma palavra, um gesto, captar cada movimento.
Era como se eu estivesse indo ao teatro pela primeira vez, e tudo me parecesse novo de novo.
Eu nao fui no domingo, mas pelas palavras que li aqui no blog, pelas fotos que vi, me parece que foi tudo maravilhoso. Eu queria, eu deveria estar aí, com voces, mas nao pude.


Obrigado a voces, cada um, eu realmente não sei porque, mas obrigado.

Nao importa o resultado do meu trabalho, ja valeu a pena estar com voces. Me emociona ver a cumplicidade que voces transparecem.

A Lilla ficaria orgulhosa desses amigos desesperados por cavalgar esse dragão. E no final, sem dúvida, o farão.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

68

Um dia de descanso e estamos de volta à sala de ensaio e agora ainda mais cedo: 08:00 horas da manhã.

Voltamos recheados dos comentários sobre o nosso processo. Sim, o que aconteceu no Tempo Festival causou e causará muitos estragos, no melhor dos sentidos. Não posso deixar de dizer que a sensação de compartilhar aquilo que com tanto cuidado fizemos nascer é das melhores possíveis.
Ainda hoje uma amiga me parou no corredor da Unirio com vontade de falar. Ela queria compartilhar comigo e com Diogo o que tinha achado do nosso processo, e ela veio se aproximando com brilho nos olhos, o brilho de quem quer trocar, de quem quer dizer pra se aproximar, pra construir junto aquilo que só tem sentido se junto estivermos. Nunca antes experimentei a sensação da troca de forma tão verdadeira. Eis que então reconheço a potência própria do teatro e me alegro por estar envolvida nesse bonito trabalho.

De volta à sala de ensaio: deixemos os meninos respirar, indaga o Diogo. Vamos ver no que vai dar. Assim começou nosso ensaio de hoje, Marília, Dominique, Frederico, Vítor e Nina refazendo prólogo, cena 1, cena 2 e cena 3 soltos pelo espaço, abandonando marcas e profanando indicações. O que disso aproveitaremos ainda é obscuro, mas já é possível compreender como é forte e potente quando o jogo acontece com o corpo e não só com a palavra. Sim, o corpo, por favor. Mesmo que errado, torto, estremecido, embaraçado, mesmo que pesado, ruidoso e envergonhado, o corpo quer participar da brincadeira, quer chegar junto, quer mostrar a que veio. E vocês atores voltaram a lembrar os gestos e resgataram os jogos que havíamos abandonado e só agora percebo o quanto minhas intuições estavam certas: eu no fundo sabia que as coisas abandonadas nunca foram esquecidas.
Obrigada pelo prólogo de hoje Nina, Fred, Vítor, Marília e Dominique.

Após cena 3, improviso da cena 4. a primeira fala após tantos minutos de silêncio anuncia o grau de destruição que virá a seguir, destruição tal como a traça faminta devorando um velho livro: corrói as palavras gastas, desenhando um novo caminho.

E logo em seguida, Odilon e Andréia. Parece bobo da minha parte mas tenho torcido por você Odilon, estou quase vestindo a camisa do seu time: aqui não tem corno nem frouxo! estou quase lá...quero ver se você me convence amanhã...

Cecília e Rita entram logo depois disso, Cecília hoje quase chora falando com a Rita, é Cecília, nem tudo precisa ser dito em palavras...

Todos em cena, trocam as roupas. Odilon com diadema na cabeça, Inácio com a sandália de salto da Andréia, Andréia descalça e com aquele short não precisa de mais nada pra parecer um menininho, eles trocam as identidades, agora é Letícia quem vem chegando, Odilon é a "Lilla que traga". Letícia fumava um cigarro atrás do outro, alguém diz, ela tinha uma tatuagem no braço, uma pinta, um outro corrige, uma pinta no pescoço, não, a pinta era na coxa, era preta? era marrom. cheia de pêlos. Ela nunca tirou aquela pinta, era a marca dela, alguém dizia.

A Letícia tinha voz rouca, no tom mais grave
Gostava de mascar trident de canela e halls maça verde
Ela dizia: tô ótima Brasil!
Meio Débora Falabella. Não, meio aquela namorada do Homem Aranha.
Ela tinha olhos verdes, cabelo louro acinzentado
A coisa mais bonita da Letícia eram suas mãos. Não, era a generosidade. Ah! conta outra.
Letícia era antipática. Só no primeiro momento. É, só no primeiro e no segundo e no terceiro, quem sabe no sétimo...
Ela chamava o pai de Jorge.
Extremista.
Arrotava.
Quando não escutava as pessoas dizia assim: o que? que foi? o que?
Violeta sua cor preferida.
Ela xingava, xingamentos direcionados: vai-tomar-no-seu-cú.
Lembra da risada? e do cheiro? e do choro? e de como ela dançava...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

algumas fotos do 1º TEMPO


Confiram as outras fotos neste link: http://www.flickr.com/photos/tempo_festival

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map specific


por Rafael Medeiros

A GRANDE TRANSGRESSÃO

Mais uma contribuição do Juliano para o nosso processo:

"Cansei de carregar meu fim de mundo pra passear no bairro com o desastre atrás e o medo na frente. Essa boca também esgotou-se na tarefa de narrar escombros. Agora o vazio é bem vindo pois ele é lugar para guardar o amigo! Haverá agora em mim um outro olhar e quando eu viajar e ver o mar, ou ver um relógio de flores na cidade serrana, ou alguma pintura viva e turbulenta, estarei olhando pela Letícia e simultaneamente ela que estará olhando através de mim. Agora eu compreendo porque eu era feito de tanto vazio. É para que coubesse o outro, o mundo do outro. Essa imensidão que me ultrapassa tanto existirá em mim e por isso, eu serei menor e maior ao mesmo tempo.

Você sabe que uma vez eu fui com ela numa festa e ela carregava uma bolsinha esverdeada cheia de cacarecos. Durante a festa sentou-se no gramado e perdeu a bolsa. Quando foi embora passou a mão pelo jardim e pensou ter pego a tal bolsa, mas ela estava com uma tartaruguinha na mão. Já no carro alguém perguntou: o que você está fazendo com essa tartaruguinha no colo? E ela levou um grande susto, voltamos ao jardim e ficamos procurando a bolsa. As pessoas riam tanto junto dela que o mundo parecia estar sempre começando. Sempre perto de um caroço surreal, um núcleo mágico e abundante. É estranho que hoje se meçam as vidas pela longevidade quando muitas vezes uma longa vida jamais conheceu um grande sorriso como o dela.

Eu quis tanto experimentar e transgredir, mas agora percebo que a grande transgressão é o salto do outro para dentro de mim. Como é possível essa maravilha?"

AMIZADE E MORTE

o texto abaixo foi escrito pelo Juliano que através do seu olhar sobre nós, tem nos ajudado nesse momento especulatório pós cena 3. Compartilho com vocês as suas belas palavras.

"Eu acho que vocês deviam parar com esse barulho, esse zum-zum-zum acusatório. Eu penso naquela que se foi. É todo um mundo que partiu. Quem era a Letícia? Eu gostaria de falar dela. Ela era uma pétala e sua única defesa era o perfume. Acho que nós somos todos uns trogloditas comparados àqueles dois olhões que eram urnas verdes de silêncio. Sabe que um dia eu a encontrei numa calçada do Botafogo e ela recolhia folhas secas num saco plástico? Eu não entendi direito o que ela tava fazendo, mas esses dias me caiu a ficha: ela pegava as folhas avermelhadas, as folhas enferrujadas, como ela me disse, porque eram lindas demais! Eram lindas demais, vocês entendem? E ela carregava as folhas para o quarto dela. Vocês podem compreender que estes olhos estavam desenferrujados! Desenferrujados, sim.

- Você quer dizer que esta morte nos deixa recados?
- Você está dizendo que estamos surdos?

Falo da dor de não achar a palavra-espelho, a palavra-cesto para caber todo o infinito Letícia. Falo que o mundo da Letícia me tocou e eu me sinto pequena e humilde diante de tanta verdade. Me assusta que ela tenha passado desapercebida e que vocês não parem de falar para que a gente possa começar a falar dela. Vocês nunca repararam que a Letícia tinha uma pinta escura na coxa? Uma pinta cheia de pelos. Eu acho que aquilo era uma folha, um pedaço de árvore na perna dela. Sabe, todo mundo insistia para ela tirar, mas ela nunca tirou aquilo. Acho que era a digital da inocência. Vocês entendem? A Letícia não tinha perdido a digital da inocência.

- Vocês precisam parar de morder as próprias aftas. Não entendo: por que em mim subitamente abriu-se uma janela para outra estação? Por que de repente tornei-me delicada e extravagante? Vamos, eu proponho que falemos apenas dela. Ela morreu e isso não é ficção. Amizade e morte, é por isso que estamos aqui."