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sábado, 30 de julho de 2011

Mudança de Parâmetro


parâmetro 
(para- + -metro) 
s. m.

1. [Geometria]  Linha constante que entra na equação ou construção de uma curva, e serve de medida fixa para comparar as ordenadas e asabcissas.

2. Característica ou variável que permite definir ou comparar algo.

Parto do posto acima para desenhar algum percurso possível do que possa ser essa parada do processo colaborativo. Havíamos sentado, lá nos inícios, para discutir o que poderia ser, para discutir papéis, funções, maneiras de se fazer. Pois bem, entendendo ou não alguma coisa, seguimos tramando ideias, propondo coisas e escrevendo com a caneta que nos era possível ter em mãos.

Mas, no último ensaio, percebi que estar em processo - e nele estamos - pressupõe uma constante reavaliação de parâmetros. De acordo com o verbete acima, "parâmetro", trata-se de uma varíavel que permite definir ou comparar algo, ora, estamos falando de um dado, uma linha, um limite que nos dá a medida de todo o resto. Ou seja: qual é o parâmetro que nos diz se a cena tal deve ou não continuar no espetáculo? O que nos permite saber que é mais acertado o texto chegar mais acelerado ao invés de mais lento?

Poderiam ser muitos parâmetros. Eles foram. No entanto, não coexistem muitos parâmetros porque a curva, a evolução de acontecimentos que estamos construindo, já não diz respeito mais a nós mesmos, ao nosso processo de criação, as nossas ideias e vontades. Hoje, a curva tem nome, se chama Dramática, e diz respeito ao nosso esforço por tornar possível e sensível que nossas personagens vivenciem essa história, essa dramaturgia (por nós, claro, tramada).

Vejamos: qual parâmetro então pode dar limite, corpo, a tudo o que vem sendo testado e abandonado? Qual parâmetro é capaz de organizar esse caos presente em cada ator, que vaga acumulado, atores vagando quase que saturados com tudo o que já foi feito e, no entanto, com apenas um pedaço de cena para nela dar sentido a tudo isso?

Se o parâmetro agora fosse aquele mesmo dos inícios, toda a angústia se justificaria e encontraria abrigo. Mas não é. Não pode ser. Não é. O nosso parâmetro agora é mais livre e diz respeito à cena, diz respeito à direção. Somos dois diretores, movidos pelo desejo e empenho de tornar essa história sensível, de tornar ela possível a quem nos vê. Nós somos os espectadores que vocês sempre terão. Isso não é pouco, isso não é pouco. De fato, não é.

Portanto, vamos deixar as medidas tombarem e outras novas assumirem nosso destino. Vamos acreditar que nem tudo deve voltar, nem tudo é hoje necessário para criar isto que estamos construindo. O sentido de cada personagem é também movediço. Isso é processo, ora, estamos em processo. Não funciona que sejam vocês inflexíveis, atores. Isso não é acusação. Não estamos aqui pra isso. Estou dizendo que a inflexibilidade às vezes está no pensamento que não se permite ser outra coisa que não aquilo, descoberto lá atrás, aquilo que faz todo sentido. Não estamos buscando sentido. Estamos buscando atravessá-lo.

Tudo isso pressupõe movimento, pressupõe inconstância, pressupõe dança e respiro. Ora, então não vamos falar do corpo dando a ele o parâmetro dicionário. Não vamos endurecer o parâmetro se a coisa toda quer degringolar e correr livre e solta.

Essas palavras são um sutil aposta na noção de processo. Não vamos perder a nossa imensa capacidade em lidar com o que não sabemos. Até agora, tudo o que temos partiu desse embate com o desconhecido. Sigamos nisso. Eu e Flávia estamos atentos para já já, deixar claro a vocês, o porquê de tudo isso.

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