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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

AMIZADE E MORTE

o texto abaixo foi escrito pelo Juliano que através do seu olhar sobre nós, tem nos ajudado nesse momento especulatório pós cena 3. Compartilho com vocês as suas belas palavras.

"Eu acho que vocês deviam parar com esse barulho, esse zum-zum-zum acusatório. Eu penso naquela que se foi. É todo um mundo que partiu. Quem era a Letícia? Eu gostaria de falar dela. Ela era uma pétala e sua única defesa era o perfume. Acho que nós somos todos uns trogloditas comparados àqueles dois olhões que eram urnas verdes de silêncio. Sabe que um dia eu a encontrei numa calçada do Botafogo e ela recolhia folhas secas num saco plástico? Eu não entendi direito o que ela tava fazendo, mas esses dias me caiu a ficha: ela pegava as folhas avermelhadas, as folhas enferrujadas, como ela me disse, porque eram lindas demais! Eram lindas demais, vocês entendem? E ela carregava as folhas para o quarto dela. Vocês podem compreender que estes olhos estavam desenferrujados! Desenferrujados, sim.

- Você quer dizer que esta morte nos deixa recados?
- Você está dizendo que estamos surdos?

Falo da dor de não achar a palavra-espelho, a palavra-cesto para caber todo o infinito Letícia. Falo que o mundo da Letícia me tocou e eu me sinto pequena e humilde diante de tanta verdade. Me assusta que ela tenha passado desapercebida e que vocês não parem de falar para que a gente possa começar a falar dela. Vocês nunca repararam que a Letícia tinha uma pinta escura na coxa? Uma pinta cheia de pelos. Eu acho que aquilo era uma folha, um pedaço de árvore na perna dela. Sabe, todo mundo insistia para ela tirar, mas ela nunca tirou aquilo. Acho que era a digital da inocência. Vocês entendem? A Letícia não tinha perdido a digital da inocência.

- Vocês precisam parar de morder as próprias aftas. Não entendo: por que em mim subitamente abriu-se uma janela para outra estação? Por que de repente tornei-me delicada e extravagante? Vamos, eu proponho que falemos apenas dela. Ela morreu e isso não é ficção. Amizade e morte, é por isso que estamos aqui."



4 comentários:

Diogo Liberano disse...

é um luxo,,

Vitor disse...

nossa

Vitor disse...

em lágrimas "doloridas" mas mais TRANQUILAS.

Fred disse...

nossa, leio esta reivindicação do juliano e na hora me lembrei de uma coisa. O Juliano fala da necessidade de se falar da Lilla, né ? Lembra da época em que cada ator tinha que trazer um jogo e o meu era justamente este ? Era um espaço livre para criação da memória-Lilla em que contradições era bem-vindas e a dramaturgia era contruída ali, na hora, em cena, no jogo ?


também lembrei agora que o César falou pro Diogo do quão bom é este lugar do improviso da cena 4 que ele viu no domingo e de que forma isto pode afetar o trabalho como um todo.

sei lá, unindo as falas do Juliano e do César me parece que aquele jogo que na época foi descartado pode entrar devagarinho ou ser repensado...

será que depois de tudo tão marcado e decorado, tudo tão pá pum, agora não seria o momento do refresco pro público e pros atores ? sei lá. só pensamento;.