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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Sonhei que um grande cachorro me atacava. Ele era enorme e babava muito. Aquele tipo de baba que os cachorros grandes costumam ter. Como aquele cachorro do Turner & Hooch. Sua bocarra parou a poucos centimetros do meu nariz. Ele ia arrancar o meu nariz. De repente ele começou a lamber minha cara. Em poucos segundos nos tornamos grandes amigos. O cachorro e eu. Nos tornamos inseparaveis. Ele entrava no bar comigo. Tinha um banco reservado pra ele perto do balcão. Ele se sentava lá do meu lado e bebia sua grande caneca de chopp. Escuro. Chopp escuro. Era o que ele sempre bebia. Algumas pessoas no bar não gostavam do meu cachorro. Ele tava se lixando pra todos eles. E eu também. Nós éramos verdadeiros amigos. Do tipo de amigo que não se encontra mais. A gente se bastava. Por isso a gente sentava lá no bar e bebia em silêncio. Eu bebia o meu whisky com duas pedras e ele o seu chopp. Escuro. Depois a gente saía pela porta do bar. Dava pra perceber o alívio que a gente causava quando atravessava a porta do bar em direção à rua. As pessoas tem medo do que não conseguem explicar. O cachorro e eu. A gente se sentava perto de um lugar que parecia um estaleiro ou algo assim. E a gente testemunhava o por do sol. Eu não me contentava em apenas ver o por do sol. E o cachorro também não. Por isso que eu digo que a gente testemunhava o por do sol. Dois grandes amigos no fim de tarde. Muitos anos depois, o cachorro morreu. Ele gania de dor nos últimos dias. Eu já não me sentia tão jovem assim. E naqueles dias envelheci dez anos em um. Dois velhos amigos morrendo juntos. Mas eu não morri. Me tornei uma lembrança pálida do que eu era. Um fantasma desolado. Uma espécie de sujeito sem destino. E não há nada pior do que não ter destino. Isso nos condena à imobilidade. Jamais tive outro amigo. E nos anos seguintes eu me sentei lá todos os dias e bebi o meu whisky com duas pedras. Mas sempre pedia uma caneca de chopp. Escuro. Foi o jeito que encontrei pra me imaginar ainda vivo. Mas é claro que eu tava me enganando. " - por Mário Bortolotto.

4 comentários:

Dominique Arantes disse...

Mater-se lembrança é também manter-se vivo?

Vitor disse...

acho que sim...

Fred disse...

"Mas eu não morri. Me tornei uma lembrança pálida do que eu era."


uou.
tenho medo de virar uma lembrança pálida do que já fui.

Marília Misailidis disse...

lembrança pálida...não há nada pior do que não ter destino. Isso nos condena à imobilidade. Jamais tive outro amigo. E nos anos seguintes eu me sentei lá todos os dias e bebi o meu whisky com duas pedras. Mas sempre pedia uma caneca de chopp. Escuro. Foi o jeito que encontrei pra me imaginar ainda vivo. Mas é claro que eu tava me enganando.

Incrível!
Também tenho medo de me perder de mim.Deve ser horrível se sentir sem destino.

Acho incrível essas ações que reproduzimos para sentir alguém querido perto da gente.Paro para pensar o que sentiria saudade de fazer com ela...