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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Notas sobre a dramaturgia - Cinco

PRÓLOGO – ESCRITA AUTOMÁTICA

Não se assenta sobre alguma lógica cognitiva reinante. Essa escrita acontece, independente de quem a ouve, independente se se entende e, sobretudo, independente de quem fala. Ela impera e é ainda mais veloz que o tempo. Supersônica. Só faz seu sentido quando a coisa toda já tiver sido derramada. Eu pensei esse nome para o prólogo por acreditar que durante boa parte do espetáculo só o que há são palavras. Eles falam muito. Eles falam, dizendo ser para entender, mas falam sobretudo porque nomear resolve o problema. Nomear, durante um dado tempo, serve para segurar o pavor e dar sentido ao que nos escapa.

É curioso como o Odilon, no meio da primeira cena, falará já estar faz tempo esperando ouvir o silêncio entre eles. Eles não param. Os textos se substituem, as falas são cortadas. As contrabarras não estão ali por outro motivo. Elas existem até no meio de uma fala\ Praticada por quem fala\ E se cala para falar outra coisa.

A Cecília não sofreu para dividir tudo. Ela fez isso para manter a própria mente desocupada. Não foi pra ter trabalho, ela listou tudo em ordem, coisa a coisa, com precisão nos detalhes, justamente porque isso liberaria sua mente para que não pensasse no fato. Naquele fato, que eles parecem mesmo querer passar longe (mesmo quando já tão pertos).

A Cecília não sabe nada do surrealismo. Eles não estão pensando nisso. Eles estão, cada qual a sua maneira, tentando dissipar aquilo que talvez já saibam não vai ter jeito. É um esforço para acreditar que talvez falando sobre a coisa seja possível resolvê-la. Mas não. Como diz Eduardo Pavlovsky em sua peça PASO DE DOS: as palavras nos servem para esquecer, muitas vezes falamos para apagar aquilo que havia crescido entre nós.

Eles vão falar até o corpo ranger e pedir pelo silêncio, pelo sufocamento e confissão das entranhas. Não vai durar muito tempo esse falatório. A garganta vai secar, Nina, porque a sua poesia é curta é grossa, mas é longa e cheia de amor.

CENA UM – DESPEDIDA DO IDEAL

Não ia ser tão simples assim, gente. Eles talvez soubessem. Mas talvez, realmente, tenham tentado disfarçar o problema. Eles não acharam que bastaria se reunir e dividir tudo para, enfim, a dor acabar. Eles fizeram isso, mas a dor não cessou. A nossa peça começa com a divisão já feita. O sofrimento, o trabalho todo, toda a prosa para dividir coisa a coisa – isso tudo já passou. Tarefa cumprida. O problema do qual eles falam é outro. A questão que fica diz respeito ao depois. Porque se o que estava faltando era dividir os pertences, como pode eles estarem ainda assim? Ansiosos? Como ficar satisfeito com o real se o real mesmo resolvido ainda grita, ainda dói, aprisiona e atormenta a mente e o corpo?

Deve ser porque era mentira. Então o que se resolveu não foi o real, mas alguma outra coisa disfarçada dele. Aquilo que eles chamavam de real era na verdade apenas uma idealidade. Um possível real que eles talvez gostassem de achar ser possível. Mas a coisa toda da Lilla faliu tudo isso. De um dia pro outro. A Lilla, querendo eles ou não, empacotou o real dos amigos (o mesmo dela) e entregou todo o mistério (a vida é mais complexa do que sabíamos, mas eu não quero ficar aqui, não tenho estômago pra isso – é aquilo que talvez ela tivesse dito aos amigos). O real que partiu não era tão real assim. Ao chocar seu corpo contra o piso de concreto, naquela manhã de domingo, Lilla rachou também o sentido. Tá tudo assim meio confuso. Como se o mundo descobrisse seu íntimo. A sua real realidade.

Ora, então, se o ideal deles se despediu (foi despedaçado), o que fazer com isso que parece ser real (e não é?)? As perguntas se amontoam e a realidade se revela perturbadora e desconhecida. Nem sempre tudo nela germina, nem sempre tudo nela se resolve, nem tudo precisa de contraponto ou rima pra seguir. A coisa no real – a eles, quase inédito – flui e vai sem freio. Ponto final. Pode ficar chocado, pode ficar puto, descrente cego amargo e meio ao meio: o real não precisa de você para seguir seu traço. Ele é tiro preciso e você é apenas caminho.

Portanto, nesta primeira cena o que está em jogo é tudo isso. É essa percepção aguda da realidade. Faliram-se os sonhos, as aquarelas ficaram sob a chuva e escorreram deixando apenas marcas de traços e saudade de cada cor. Gente, eles estão falando pra aliviar o horror. Mas isso não vai vingar. O horror é maior. O dragão dentro de cada um sente fome e é preciso entretê-lo. Eles não sabem disso, mas daqui a pouco os gestos ficarão maiores (para dar conta do íntimo ferido e aumentado).

Pensem em tudo isso. Mais do que decorar as falas (isso vocês já sabem), ousem pensar no porquê de cada fala escrita. Por que minha personagem fala isso e depois aquilo? Isso começa a dar a vocês alguma espessura desses personagens. Na próxima semana encontraremos as indagações dentro de cada fala.

Esse texto que escrevi agora é só para desenhar a vocês o percurso da dramaturgia. De onde ela parte e sobre qual terreno se cria. Vamos firmar isso para poder erguer o adiante.
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terça-feira, 3 de maio de 2011

O FOGO DO DRAGÃO

Depois do ensaio, Eu Nina e Marília desatamos em uma conversa que durou até as duas horas da tarde. foi quase uma extensão do ensaio, uma conversa provocada pela provocação que o texto do Diogo acendeu. Com certeza uma das conversas mais importantes que já tive. Não conseguíamos parar de falar, a conversa que se iniciou com todas sentadas em roda em gestos tranqüilos e pacatos, terminou com as três de pé, quicando o corpo e sorrindo exaltadas.


Idéias e conceitos não se comunicam, indivíduos se comunicam, diz Nina

O QUE É O PROGRESSO? Sim, o que é o progresso Marília? Sim Marília, O que é o progresso Flávia?

As três falam juntas: O que as pessoas acham? Que progredimos? É claro que não, não progredimos, não existe progresso, o que existe são diferenças, o que existe são mundos se cruzando e coexistindo ao mesmo tempo, o que existe são coisas que de um lado melhoram e coisas que de outro pioram, não progredimos, somos seres potencialmente escravocratas, potencialmente revolucionários, potencialmente suicidas, potencialmente adoráveis, e isso desde sempre, tudo depende de que potencial você quer despertar, tudo depende da escolha que você vai fazer. Continuamos sendo os mesmos de sempre. Ainda bichos, ainda homens, sempre bichos, sempre homens, com mais ou menos linhas de telefone, contatos no facebook, dólares no Santander, com mais ou menos espinhas, cabelos e dentes. Ainda que diferentes, sempre os mesmos.

Ainda dizem que os animais não são inteligentes, diz Marília

Ainda dizem que os aborígenes não são inteligentes, diz Nina

Coloquei meus amigos da economia contra a parede, digo eu. Cheguei pra eles e disse: vocês ainda pensam que progresso é crescimento econômico? Vocês realmente ainda pensam assim? Progredimos quanto mais lucramos, quanto mais enriquecemos? Uma nação progride quanto mais rica ela se torna? Esse foi o discurso feito pelos economistas no século XVIII, naquela época eles pensavam assim porque o homem na sua inquietação profunda não poderia sossegar enquanto não mapeasse tudo, enquanto não descobrisse tudo e mexesse em tudo, o homem e sua mania de grandeza, o homem e sua faminta compulsão por carne e ouro...naquela época (séc. XVIII) tudo tendia para a exploração de pessoas, terras e riquezas. Só que as coisas mudaram vocês não percebem? Não existe mais terra a ser explorada, o homem decodificou tudo, nomeou tudo, não existe mais riqueza que possa dar conta da ganância do homem, o que existe é uma saturação, um cansaço, um já deu, já chega. Estamos todos cansados. Cansados de ter que rebolar um ano inteiro pra ganhar um salário que não paga o plano de saúde e muito menos a felicidade de sentar no alpendre de uma casa, respirando um ar puro e olhando o por do sol, estamos cansados de caminhar e caminhar e não chegar nunca lá, porque o lá é uma piada, uma ilusão, um nada.
Não estamos aqui pra isso...

O homem está cansado de olhar tantas vezes pro lado errado. Ao mesmo tempo que digo isso penso que é um saco falar mal de tudo. Não quero mais, não agüento mais ficar lamentando, pensando por quê? Porque somos assim? Tão fúteis e destruidores, tão mesquinhos e covardes? Não enfrentamos nada, fomos nos protegendo de tudo que nos mata e nos escondendo, mentindo, desviando...não quero mais pensar assim, existe um outro lado, existe uma beleza grandiosa no homem, olha a gente aqui, um beleza intensa e transformadora, não existe Nina? O que somos Nina, um erro?
Não sei Flávia, acho que é como você disse, depende de que lado você quer olhar, um dia o homem disse: eu!,Olhou pra ele e se viu, um ser separado de si mesmo, olhou e disse: eu! Olha que loucura! O homem ganhou a fala e com ela uma condição intrínseca ao homem,: somos um ser que fala, somos aqueles que dizem: eu. E essa consciência é transgressora. Eu Também acho Nina, acho que isso que chamamos “inteligência” é uma dádiva que nos foi dada, na verdade pode ser uma dádiva se por exemplo a inteligência nos servir pra entender que o que chamamos de progresso é a destruição daquilo que deveríamos proteger.
O que somos Marília, um erro?
Acho que sim Flávia, acho que perdemos um elo importante, acho que perdemos o sentido de coletividade, perdemos a ligação com o todo a partir do momento que quisemos dizer quem somos, não somos nada, somos parte de um todo que é muito maior que a gente. O homem é egocêntrico, isso me entristece, o homem é extremamente egocêntrico.

Silêncio

Sinto que posso parir uma galáxia, diz Marília.

Risadas

Mais conversas sobre o suicídio, o instinto suicida, a depressão....

Suposta conversa entre Rita e Cecília:

Rita: Não Cecília, eu já li muito sobre isso, estou te falando, os médicos falam, a depressão não tem haver com você é só alguma coisa que seu corpo deixou de produzir, é química sabe?

Cecília: Rita, a depressão não é simplesmente química, não é simplesmente algo que meu corpo deixou de produzir ou nunca produziu e que me deixa depressiva, a depressão está intimamente ligada com quem eu sou, com que olho eu olho o mundo, com o que me afeta e deixa de afetar, ou com o que não me afetava e passa a me afetar.

sábado, 23 de abril de 2011

O choro da felicidade seca

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Eu me emociono
Em pensar que posso levantar os braços e estender as mãos no ar
Deixar que se sentissem
beijadas por algo capaz de envolvê-las através do tempo

Eu me emociono e não busco entender
Apenas sinto como o sentir é também compreender
Correr daqui, buscar outro se estabelecer
E a isso chamar viver

O que eu quero neste momento
É tão presente nele mesmo
Que não vale dizer o que penso
Se não desejo perder o instante
Se não quero deixar de me sentir
Vivo
Eterno
E repleto de inquietudes

Neste momento,

Em que uma lágrima morre
E uma das minhas dores se converte em cor
Em choque,
em conflito:

Os cânceres morrem-se em alegria
Evaporam-se
Convertem-se na pureza de viver-se
O cada dia.

Eu me emociono!

Faço-me perceber quando há em mim
Algo que não sei entender
Entendo-me completamente quando estou nu

Desboroado

Reflito-me no chão, o meu amigo
E contemplo a queda como resultado
Que logo vira o jogo
E teto!
Lanço ao alto através das pernas
O que permite de si sair sorrindo
A outra etapa
que sempre a diante
provoca todo o semblante irritado

As mãos no alto
Eu conservo neste momento
Sentindo a brisa que caminha em meio ao tempo
Trançando as pernas e braços e cabelos e pêlos

Eu me sou todo eu

Eu me sinto a todo, me faço a mim

Eu me contorno de letras e baladas e dores e me descubro vivo

Assim

preciso do que mais?

Somente do nada.
Em nada há mais.

 

Fonte: http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com/2009/02/o-choro-da-felicidade-seca.html

domingo, 10 de abril de 2011

Verbetes

como

conj. | adv. | s. m. | 1ª pess. sing. pres. ind. de comer

como
conj.
1. Do mesmo modo que.
2. Quando.
3. Logo que.
4. Visto que.
5. Se.
6. Uma vez que.
7. Segundo, conforme.
8. De que modo?

adv.
9. Quanto; por quanto.

s. m.
10. O modo por que.

comer
v. tr.
1. Mastigar e engolir.
2. Dissipar.
3. Lograr.
4. Defraudar.
5. Gastar.
6. Enganar.

v. intr.
7. Tomar alimento.
8. Ter comichão.
9. Causar comichão.
10. Tirar proveito.
11. Roubar.

v. pron.
12. Amofinar-se, consumir-se.

s. m.
13. Comida.
14. Alimento.

 

cavalgar

v. intr. | v. tr.

v. intr.
1. Montar a cavalo.
2. Fig. Galgar.
3. Passar além.
4. Estar sentado, como se estivesse a cavalo.

v. tr.
5. Montar.
6. Saltar por cima de.

 

um

num. card. | adj. s. m. pron. indef. art. | adj. s. m. | adj. |pron. indef.
-um | suf.

num. card.
1. O primeiro dos números inteiros (ex.: um e um são dois).
2. Algarismo que o representa.

adj. s. m. pron. indef. art.
3. Uma só pessoa ou coisa.
4. Unidade.
5. Qualquer, certo.

adj. s. m.
6. Que ou o que ocupa o primeiro lugar numa série.

adj.
7. Que não admite divisão.
8. Igual, da mesma natureza.
9. Que não é múltiplo. = simples
10. Cujas partes se coadunam para formar um todo.
11. Que fornece um assunto.

pron. indef.
12. Uma pessoa ou uma coisa.
Feminino: uma.

-um
(latim -unus)

suf.
1. Indica uma relação com um tipo de animal (ex.: vacum).
2. Exprime uma relação depreciativa com determinada palavra, indicando muitas vezes um cheiro (ex.: bafum).

 

dragão

s. m.
1. Animal fabuloso que se representa com cauda de serpente, garras e asas.
2. Pequeno réptil sáurio inofensivo.
3. Antiga peça de artilharia.
4. Soldado de cavalaria que também combate a pé.
5. Fig. Pessoa de mau génio.
6. Mulher muito alta.
7. Constelação boreal. (Nesta acepção!, grafa-se com inicial maiúscula.)
8. Veter. Catarata.
9. Heráld. Emblema ou insígnia em forma de dragão.
dragão infernal: Satanás.
dragão volante: espécie de meteoro.

 

Verbetes pesquisados em http://www.priberam.pt/.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Dia do Enterro – Parte II

Diogo Liberano

 

O corpo dela chegou sem pestanejar ao destino previsto. Os parentes então se foram, os curiosos se foram, os carros voltaram a soltar fumaça pelo escapamento e os coveiros se reuniram na cafeteria para beber o café da manhã e lavar as mãos. Não houve pássaro que fez alvoroço nem vento a mover alguma decisão. Eles permaneceram cravados no chão feito natureza morta destituída da possibilidade de render fruto. Ali cravados, eles faziam todo o sentido que até então não pareciam deter consigo.

Fazia um frio descomunal do lado de dentro. Era difícil dobrar a espinha. A moça do depois foi a primeira, com a face alva e avermelhada ela se virou contra o corpo da amiga e respirou lenta esvaziando de si própria aquela ira imensa que a afogava. O cara do celular desceu o caminho de pedras direto ao banco. E apesar de todo aquele movimento, a garota do cambalear e aquela do silêncio aproximaram-se mais do solo como se não acreditassem na morte como sendo só aquilo: um lacrar-se por completo no interior do mundo.

E enquanto isso, o cara do café se mantia erguido e entretido nela ali ainda irascível. Entretido no outro que descera o caminho e entretido também nas duas ali ao chão lançadas. É sujo, ele disse, levanta, gente, mas elas não ouviram nada. Desaprendemos a ouvir, ele talvez tenha pensado. Foi informação demais, ele talvez tenha pensado. Ou não. Porque ela partiu irada sem olhar para trás. Ela desceu o caminho e sentou-se ao lado do cara do celular que no banco parecia outro, visto que o sol revelava as coisas como elas pareciam ser; tudo agora era bruto e rouco. A pele esburacada e o olho remelado. Eles ficaram ali um longo tempo se falando mas sem a exigência do se ouvir. Apenas para durar no segundo e seguir. Feito essa rima desenfreada.

Então foram os dois lentamente mirando a capela. Ela respirava lenta satisfeita pelo dever cumprido. Os dois no banco vendo a fresta pela qual o beija flor escapulira. E no entanto, tudo ali dentro ainda suava e tremia, tudo ainda ali agindo e transformando o cômodo numa caixa de vidro repleta de agonia. Eu quero ir embora. Ela disse. Vamos tomar café juntos. Ele tentou dizer.

Porque vindo com um copo plástico na mão ele cruzou a frente dos amigos e os fez calar. Atrás dele as duas meio que se abraçando meio que andando meio que tentando selar o medo e a morte e, quem sabe, por que não?, as duas meio que tentando resolver tudo aquilo que não teria solução. Elas pararam próximas ao banco. E frente a este, erguido, o cara do celular mantinha um braço esticado na tentativa de segurar o outro que enfim já tinha ido rumo à cafeteria. Ele ali com o braço esticado como se chamasse um ônibus que não viria. Ele sentou-se novamente porque o outro voltou com um copo plástico na mão. Eu nem vi de onde esse copo surgiu. Mas se fosse mentira pelo menos serviu para entreter a falta de sentido daqueles primeiros passos que todos tentavam dar.

Do lado de fora, quem os visse assim, pensaria, do quê estão brincando? Que forma confusa é essa de se relacionar que um não olha ao outro e que um outro não olha a um sequer? O cara do celular perguntou se a gente está esperando a mãe dela voltar para ficar ainda mais constrangido? A gente pode ir embora ou alguém ainda tá querendo viver mais um pouco tudo isso?

Ele jogou o copo no caixote de areia ao lado do banco e disse vocês perceberam que a tia Anita não fala que ela se matou? Nos olhares desencontrantes o desencontro ainda era o que poderia haver de mais reconfortante. Vamos. Não se moveram. Vamos, disse o cara do celular. Para onde. A moça do depois sempre no flagrante do que daquilo ali poderia surgir. Vamos tomar café juntos. Ele já bebeu café demais. Vamos beber Stella. Obrigado. Ficar bêbados. Rir e chorar. Que ela adora. A Lilla adora Stella. Ela adora.

Do lado oposto a eles uma brisa moveu a copa da árvore sobre a cova. Ela gosta de Stella, pensaram juntos, talvez tenham pensado, é difícil dizer o que eles pensavam nessa hora improvável. Acho por vezes que ela ainda não existiu por completo. Essa hora da qual tanto falamos e que não cabe no relógio, nem num peito, nem num terreno vasto e vazio. É que eles não tiveram força, era visível, eles não tiveram força para ser nada exceto a ignorância de quem ama. Não saber. Para onde ir. Nem nada. Apenas vagar.

Ele então voltou à cafeteria. O cara do café. Ele voltou. E nisso moveram-se os outros. Como se estivessem de fato costurados pelo absurdo que reinava sobre todos. Costura em lã fina capaz de serrar. O peito estrangulado. A vontade de gritar. Eu queria ficar junto. Ele disse meio sem saber a quem. Eu queria não ter que pedir porque sou sempre eu quem pede. Mas eu queria ficar junto com vocês. Não foi por isso que ela se foi? Porque não estávamos lá pra segurar seu impulso. Eu estava. Eu queria ficar junto com vocês, pra não criar motivo pra voltarmos a esse cemitério tão cedo. É só que vai ser duro demais sair daqui e voltar ao dia-a-dia.

Dentro da capela um vento investia contra o vidro da janela. Como se de dentro algo quisesse sair e estivesse pedindo me deixa partir. Ela então foi direta. Virou-se e adentrou o espaço, arregaçando as portas e atravessando para dentro das paredes as janelas. Ela saiu cambaleante. Da porta o rosto clamando alguma exatidão ou porto capaz de a firmar. Mas não tem mais nada aqui. Ela os falou confundida. Ela se foi. Não tá lá embaixo porque ela foi voando. Da janela. Enquanto a gente aqui acha que ela tá ali dentro ela ri dentro daquela caixa enquanto a gente acha que ficar aqui vai trazer ela de volta à vida. Ela não vai mais voltar.

Eu só queria que fosse ontem de novo. Disse um dos três ali sentados. Ela da porta da capela olhou como se em busca de um culpado por ter dito aquilo tão ousado. O que sobrara de ontem é só o hoje. Não dá para voltar. Eu disse a ela que se fosse para viver assim que era melhor não viver. E se eu dissesse que podia? E se eu tivesse dito que sim que ela poderia fazer o que quisesse e se eu tivesse a convencido de que tudo era sim possível, será que mesmo assim ela se teria ido de mim?

Ele estagnado. De nós, corrigiu. Ele da cafeteria recém-chegado. O corpo suando seco enquanto a garota do silêncio morria por dentro gritando e pedindo sem remendo alguém me tira de mim e me faz amar esse buraco! Ele inteiro a pegou de si e a abraçou como quem é capaz de se ferir para aliviar um amigo. Como quem pede despeja em mim essa culpa sua que ela é minha também se isso for lhe aliviar. Abraçaram-se. Beijaram-se. E choraram juntos.

Até que pela porta da capela viesse o beija-flor enlouquecido. No entanto, porém, neste agora, ele vinha preciso. Sem grito nem asas para além dos segundos, ele veio como se tivesse completado seu percurso. Uns viram. Outros fingiram ver. Outros eu não sei dizer. É só que era informação demais para fazer nascer uma manhã. Tinha coisa demais acontecendo. Tinha culpa demais brotando feito gota no orvalho. Feito lágrima, tinha muito verbo querendo ser atirado.

É que fora, eles ali desunidos, eram aos poucos atados de volta por essa ideia torta da Lilla. Ideia que dentre em pouco completaria já seu meio dia de vida. De fora, reluzindo quinas, eles só queriam limpar o vazio para se livrar daquela ânsia, daquela sensação que não tem nome mas que consome e mastiga. Eles de si sendo desabitados, batendo cabeças uns contra os outros e se reconhecendo incapazes, idiotizados.

Uma garota pássaro acaba de chegar no paraíso. Ela disse. É mesmo para lá que eu imaginava que ela pudesse ter ido. Eu não sei dizer quem disse o quê, mas era tudo fruto daquele inferno ali delicado e íntimo. No orvalho, a manhã vinha simples e dilacerante. Eu quero ir embora daqui. Ela disse novamente. Eu tô de carro. Eu vou de táxi. Espera. Eu não quero. Vamos juntos. Eu quero ficar só. Você quer sofrer só. Eu quero. Não faz sentido. Não faz. Ficar só. Estamos sós. Juntos. Não. Vamos todos. Não. Eu posso agora. Eu também. Eu também. Eu também. Eu não. Sem um não vai dar. Quem sabe então se você gritar mais alto ela não te escuta e resolve voltar pra completar a nossa excursão até à cafeteria?

Eles ouviram algum vento passando mudo como se batesse a ficha. Dentro, a terra abraçava a cova e ela no caixão ia se esquentando e ainda sorria. Talvez um bicho estranho e pequeno tenha roído uma pequena fissura lateral no caixão de mogno escurecido. Talvez outro inda mais fantástico tenha tocado uma melodia de farpas e a acordado de vez. Ela talvez tenha tomado um pouco de veneno para voltar a viver. Ela talvez tenha ficado pequena ante a imensidão daquele caixão. Talvez ela tenha atravessado a fissura e ido brincar direto no primeiro rio a cortar toda aquela terra.

Talvez o pavor desta madrugada tenha me feito imaginar coisa demais. Talvez eles desaprenderam a pensar. Mas disseram, sem dúvida, do cansaço, do medo, do ficar juntos, da noite, do ficar sozinho, da amiga. Dessa palavra imensa que ainda agora não pára de crescer: amiga. Disseram do impossível. Disseram que nada havia sido tão horrível quanto aquilo. Eles riram. Eles sim foram inverossímeis. É só que uma dor desse tamanho nunca é real. Uma dor dessa imensidão só pode clamar por delírio. Ali, onde as lágrimas já findaram e o corpo ainda baila descontrolado e desconhecido.

Ele entrou no carro. Com a certeza de quem não sabe se no segundo adiante vai querer respirar. O outro recuando em direção à cafeteria disse algo como a gente se encontra logo logo. Ele ligou o carro. Ligou o ar-condicionado. No bolso o celular vibrando e na vista as amigas se despedindo não como quem se despede mas como quem precisa de uma ação bem concreta para não despedaçar. As duas garotas se despedindo para enfim entrarem juntas e abraçadas no banco traseiro do carro.

A moça do depois acenou um adeus vendo o carro alcançando a estrada de pedras. O cara do café já havia partido quando ela se sentou no mesmo banco. Ela como se houvesse esquecido o que viria depois. Lacrada dentro de um cachecol que a afligia a pele e o respirar. Ela tirou o pano e – não se sabe porquê – o lançou adiante como fosse um dado capaz de lhe dizer quantos passos dar.

E no ar, movendo-se milimetricamente impreciso, ela leu através do pano: haverás de bailar frenética como um dragão à procura de abrigo. Mas era só um lenço. Disse a si mesma, isso é só um lenço. E nos olhos, retido à retina, o movimento do corpo-lenço em meio ao vento se clareava e escondia. É só um lenço, é só um lenço, ela repetia. Não como quem teme esquecer, mas como quem tão somente duvida.