JOGO ou de que maneira - como - os atores expressam a cena, traduzem a dramaturgia;
BATIDA ou o tempo de cada cena (ou pedaço de cena), a duração e os inúmeros ritmos que constituem algum todo;
APROPRIAÇÃO ou em quais trechos ainda não se é confortável o jogo e como resolver isso, como ganhar a briga com as exigências da encenação e da dramaturgia;
CORPO-GESTO ou como o corpo de cada ator expressa aquilo inexprimível de sua personagem, um esboço de cada dragão (in)contido;
QUADRO ou como trazer a tona o que está soterrado sob o excesso de palavras e movimento, aquilo que é dito sem que as personagens percebam estar dizendo;
PARAGEM ou alguma maneira de permitir que a escuta aconteça, para que personagens bem como espectadores consigam deixar a ficha cair e tenham espaço-tempo para isso;
PERPLEXIDADE ou a tentativa em primeiro plano, como expressar alguma incompreensão que ali se encontra latente e em movimento.
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domingo, 15 de janeiro de 2012
pontos de vista para os próximos ensaios,,
sábado, 27 de agosto de 2011
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Prescrição
Terminada essa etapa eles podem seguir, sim, podem, cada um pra sua casa carregando consigo os objetos escolhidos. Mas....
Não saem, não se vão. Ao cumprirem a tarefa solicitada algo ficou insuficiente, mas afinal, "o que é isso que nos tomou de assalto e que está nos engolindo? Porque estamos nos ferindo, nos agredindo quando poderíamos nos amar, nos tocar, nos tranqüilizar, nos entender?”
Quando a incompreensão do que está se passando ali dentro adquire a sua forma mais extrema e agressiva um dos amigos anuncia o ato radical que acabara de fazer: “eu acabei de trancar a porta e engolir a chave desse apartamento”.
Está feito.
Agora eles estão unidos sem possibilidade de dispersão, agora eles terão que se agüentar até que reúnam forças suficientes para abrir a porta e seguir, eles ali trancados exigindo do tempo uma pausa, uma parada, exigindo da vida um descanso, uma trégua, para que se compreenda minimamente onde cada um está dentro dessa história e onde cada um irá depois dessa narrativa. Eles precisam desse assentar, desse calar da boca e fechar da porta para que possam se olhar novamente depois do fato que inevitavelmente modificou rostos e nele desenhou traços. É impossível passar por um atravessamento sem ter o corpo por ele marcado.
sábado, 13 de agosto de 2011
71
Composição das cenas 4, 5 e 6.
Inácio e Andréia
espalham objetos pela sala
Cantam juntos música da Xuxa "bola bola que rima com cola..."
Inácio tenta dizer para Andréia o que lhe aflige. O que escutamos são apenas tentativas de dizer sempre abortadas pela incapacidade de expressar em palavras o que se sente.
O que vemos é o corpo conseguindo dizer o que as palavras não conseguem, gestos agudos, precisos, repetitivos. Andréia consegue aos poucos traduzir o que vê, Inácio aos poucos se acalma, eles agradece, ela agradece, eles se vão.
curioso como alguns gestos do Inácio pareciam com os da Andréia....
Cecília e Odilon
Eles se olham, querem se encarar mas não conseguem, Cecília tenta fazer com que Odilon a abrace, ele não cede ao seu apelo, ela então pula em cima dele, aflita e desesperada começa a falar da altura do prédio, de como é alto, de como a Lilla se jogou de muito alto, ela então suplica para que Odilon a segure porque não quer cair, não quer despencar dali de cima, ele não cede, ela pergunta porque, porque o Odilon segura a Rita, a Andréia e até o Inácio mas não a segura, ele então finalmente cede, a agarra com força e não a deixa cair, ele pergunta de está bem assim, ela responde que sim, se abraçam e se vão.
Rita e Inácio
Inácio e Rita na sala. Inácio tem em mãos um par de meias, cada mão segura um par, com delicadeza e suavidade brinca com as meias como se estas caminhassem pelo espaço, passo a passo as meias desfilam. Rita observa, Inácio levanta as meias até o mais alto que seu braço alcança, em seguida solta as meias que caem no chão.
Rita e Inácio colocam as meias nos pés e percorrem o espaço deslizando os pés calçados. Marília sobe em cima de Inácio e logo em seguida desmancha-se no chão. Inácio toca seu corpo como se quisesse faze-la reagir, como se não a quisesse morta. Rita se ergue abraça Inácio, eles agarram o corpo um do outro, Rita soluça e chora, com esforço se desprendem um do outro, agora estão ligados por uma mão apenas, não querem se desprender totalmente, não querem, o esforço é inútil, aogra apenas um dedo os une, rita soluça, chora e ri, os dedos finalmente se libertam, eles se olham e se vão.
Andréia e Odilon
Andréia diz não quere ter certeza de felicidade
Odilon a beija, e mais uma vez a beija e mais outra e mais outra.
Andréia diz não querer ter certeza de felicicade, não agora, não nesse momento.
Cecília e Rita
Rita atende o telefonema de Caco, desmente o que havia dito pra ele, diz que está no apartamento da amiga morta com os amiguinhos que ele não gosta, diz que não vai sair, diz que não pode sair porque o Inácio trancou a porta do apartamento e engoliu a chave. Não precisa de bombeiro, eu quero ficar aqui.
Cecília tenta ajudar, Rita a repele, Cecília fica puta, Rita idem.
Cecília diz não querer ser amiga de uma escrava
Rita diz que as coisas não são simples assim.
A força das palavras e das imagens acima conseguem traduzir o que eu não conseguiria dizer. Estou encantada, apaixonada, inauguramos um espaço ainda mais íntimo, ainda mais intenso, estamos pegando fogo e isso é imenso.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
68
Voltamos recheados dos comentários sobre o nosso processo. Sim, o que aconteceu no Tempo Festival causou e causará muitos estragos, no melhor dos sentidos. Não posso deixar de dizer que a sensação de compartilhar aquilo que com tanto cuidado fizemos nascer é das melhores possíveis.
Ainda hoje uma amiga me parou no corredor da Unirio com vontade de falar. Ela queria compartilhar comigo e com Diogo o que tinha achado do nosso processo, e ela veio se aproximando com brilho nos olhos, o brilho de quem quer trocar, de quem quer dizer pra se aproximar, pra construir junto aquilo que só tem sentido se junto estivermos. Nunca antes experimentei a sensação da troca de forma tão verdadeira. Eis que então reconheço a potência própria do teatro e me alegro por estar envolvida nesse bonito trabalho.
De volta à sala de ensaio: deixemos os meninos respirar, indaga o Diogo. Vamos ver no que vai dar. Assim começou nosso ensaio de hoje, Marília, Dominique, Frederico, Vítor e Nina refazendo prólogo, cena 1, cena 2 e cena 3 soltos pelo espaço, abandonando marcas e profanando indicações. O que disso aproveitaremos ainda é obscuro, mas já é possível compreender como é forte e potente quando o jogo acontece com o corpo e não só com a palavra. Sim, o corpo, por favor. Mesmo que errado, torto, estremecido, embaraçado, mesmo que pesado, ruidoso e envergonhado, o corpo quer participar da brincadeira, quer chegar junto, quer mostrar a que veio. E vocês atores voltaram a lembrar os gestos e resgataram os jogos que havíamos abandonado e só agora percebo o quanto minhas intuições estavam certas: eu no fundo sabia que as coisas abandonadas nunca foram esquecidas.
Obrigada pelo prólogo de hoje Nina, Fred, Vítor, Marília e Dominique.
Após cena 3, improviso da cena 4. a primeira fala após tantos minutos de silêncio anuncia o grau de destruição que virá a seguir, destruição tal como a traça faminta devorando um velho livro: corrói as palavras gastas, desenhando um novo caminho.
E logo em seguida, Odilon e Andréia. Parece bobo da minha parte mas tenho torcido por você Odilon, estou quase vestindo a camisa do seu time: aqui não tem corno nem frouxo! estou quase lá...quero ver se você me convence amanhã...
Cecília e Rita entram logo depois disso, Cecília hoje quase chora falando com a Rita, é Cecília, nem tudo precisa ser dito em palavras...
Todos em cena, trocam as roupas. Odilon com diadema na cabeça, Inácio com a sandália de salto da Andréia, Andréia descalça e com aquele short não precisa de mais nada pra parecer um menininho, eles trocam as identidades, agora é Letícia quem vem chegando, Odilon é a "Lilla que traga". Letícia fumava um cigarro atrás do outro, alguém diz, ela tinha uma tatuagem no braço, uma pinta, um outro corrige, uma pinta no pescoço, não, a pinta era na coxa, era preta? era marrom. cheia de pêlos. Ela nunca tirou aquela pinta, era a marca dela, alguém dizia.
A Letícia tinha voz rouca, no tom mais grave
Gostava de mascar trident de canela e halls maça verde
Ela dizia: tô ótima Brasil!
Meio Débora Falabella. Não, meio aquela namorada do Homem Aranha.
Ela tinha olhos verdes, cabelo louro acinzentado
A coisa mais bonita da Letícia eram suas mãos. Não, era a generosidade. Ah! conta outra.
Letícia era antipática. Só no primeiro momento. É, só no primeiro e no segundo e no terceiro, quem sabe no sétimo...
Ela chamava o pai de Jorge.
Extremista.
Arrotava.
Quando não escutava as pessoas dizia assim: o que? que foi? o que?
Violeta sua cor preferida.
Ela xingava, xingamentos direcionados: vai-tomar-no-seu-cú.
Lembra da risada? e do cheiro? e do choro? e de como ela dançava...
terça-feira, 2 de agosto de 2011
qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá.
não ligar pro que os outros vão dizer,
não é maldizer é dizer bem, é fazer acontecer, não é fazer o que bem entender e cagar pra todo resto, é fazer sem ofender mas sem também se retirar,
dizer a que veio honestamente, sinceramente, profundamente.
Esquecer o que se é, incorporar o que não sabe.
Vestir a camisa, comprar a briga e correr de olhos fechados.
Existe algo querendo nascer que não revela um rosto apenas um cheiro.
Por isso o fechar de olhos, assim farejamos melhor, assim amamos mais vezes uma mesma e tantas outras mesma coisa.
Profanar é amar o estranho, o não sabido, o proibido porque estranho, o mal falado porque não sabido.
Profanar é amar sem jeito, sem lugar pra acontecer, amar caindo abraçado na lagoa Rodrigo de Freitas, feito poste que despenca, feito pingüim de geladeira. Profanar é ser otário, bobo, ridículo, e tudo isso porque se ama, porque se morre de amor.
Profanar porque eu preciso da baba caindo no meu corpo, pra sentir que ainda existo em algum lugar inexplicável.
Profanar porque eu preciso da risada contagiante junto ao choro de pavor,
Profanar porque corre sangue, fezes e urina pelo meu corpo, corpo esse profanado desde o que dia em que nasceu.
Profanar porque meu corpo é testemunha de um horror sem precedentes, horror que me faz cúmplice de um crime que não cometi.
Transformo em palavras o que me pede pra ser digerido. Não sei qual o valor desse bolo estomacal, divido-o com vocês pra pensarmos juntos e propormos juntos. Não sei o que nos espera e isso me agrada muito.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Hoje vai ser outro dia
nossas apostas:
DA AUSÊNCIA E DA PRESENÇA
um corpo que se ausenta e afeta a presença de um outro;
a presença de um corpo (ou corpos) que presentificam a ausência de um outro;
a presença de uma voz ausente de seu corpo;
a presença de um corpo que se quer fazer ausente;
a ausência de uma voz em um corpo tão presente (que se quer fazer presente pela ausência dessa voz...);
COLISÕES
corpos que se chocam, que se cruzam, que se afetam, corpos que ferem, olhares que coincidem, gestos que se atritam, falas sobrepostas,
PARAGENS
interrupção. falha no funcionamento. TILTI. breque.
FLUXOS
continuidade, extravazamento, andança, baratas tontas, run Forest run! Corra Lola corra, não para não para não para não! A FESTA NÃO PODE PARAR, seguir em frente, tentativa de fuga, de libertação, tentativa de dizer, de mostrar, de juntar e desfazer, de aglomerar e dispersar. puro movimento.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
ensaio 48
08/07/11, unirio, sala 602
fred, nina, marília, dominique, vítor, flávia, diogo, marina vianna, rodrigo marçal, júlia marini, rafael medeiros, philippe baptiste, fernanda abreu e tamires nascimento.
TEXTO. flávia propôs um trabalho com o texto, apontando momentos específicos, falas específicas. ao mesmo tempo, confesso, eu estou aqui escrevendo esse relatório, vendo o ensaio e também com as mãos e olhos cravadas na dramaturgia, que brotou hoje com uma ideia reveladora e (…)
PANO. com todos nós. ao som de beyoncé, the strokes, rihanna, damien rice e hot chip.
ESPADA. empunhar e neutralizar.
FRAGMENTOS PARA POSSÍVEIS LINGUAGENS
hoje o figurino está mais colorido. mais diverso.
eu. ótimo. falar pra si mesma.
rita enche a sala de objetos. genial. como criar calor?
nina afirma as coisas ao invés de perguntar perplexa. isso é curioso e estranho.
rita e odilon conversam enquanto os três quebram o pau.
rita ping-pong entre odilon e andréia,
patada nos meus amigos
ótimo jogo > usar mais nomes quebrando as falas
ouviu, inácio? diz odilon no meio de sua fala
cecília joga a pelúcia com descuido ao chão
odilon – então eles apareceram.
Os meninos realizaram apostas muito interessantes durante o improviso a partir do prólogo, cena um e cena dois. Foram dados os seguintes direcionamentos:
PRÓLOGO
cecília em cena
rita precisa realizar seis entradas e cinco saídas
odilon e andréia entram quantas vezes quiserem, mas é preciso deixar claro que suas entradas e saídas tem alguma relação
inácio não entra no prólogo
cecília pode investir num arroubo da dramaturgia já escrita
cecília deve se afetar com as entradas e saídas
CENA UM
inácio entra com a sua primeira fala, na cena um
investimento num naturalismo da cena, num lugar de ação e comportamento verossímel a nossa lida diária
investimento no discurso do corpo (ações paralelas, intimidades, gestos, toques, encontros > maneiras distintas de se escrever algo que não seja pelo uso do texto, mas sim do corpo)
investimento no andamento da cena, num jogo propositivo e intencional dos gráficos (ora mais rápido, ora num tempo mediano, ora mais devagar > variações)
CENA DOIS
investir na sequência dos acontecimentos, já que a cena não está decorada de maneira muito firme
cada personagem deve estar olhando para um dos outros quatro, sem o olhar, o olhar de todos se visitando o tempo inteiro
“RESULTADO”:
uma improvisação viva
tanto pela imprevisibilidade e jogo na solução dos “problemas”
tanto pelo domínio – cada vez maior – da cena um (a mais trabalhada até agora)
descobertas
muitas descobertas
e um corpo que de fato se permite ser afetado
um corpo capaz de afetar
de surpreender
(em todos vocês).
decorar segunda cena para segunda.
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domingo, 3 de julho de 2011
G E S T O
Um movimento envolvendo uma parte ou partes do corpo; Gesto é Forma com início, meio e fim. Gestos podem ser feitos com as mãos, os braços, a cabeça, a boca, os olhos, os pés, o estômago, ou qualquer outra parte ou combinação de partes que possam ser isoladas. O Viewpoint Gesto é dividido em:
1. GESTO COMPORTAMENTAL. Pertence ao concreto, ao mundo físico do comportamento humano da forma como observamos em nosso dia-a-dia. É o tipo de gesto que você vê num supermercado ou metrô: alguém riscando um papel, apontando, cheirando um alimento, cumprimentando outro alguém, fazendo uma saudação. Um GESTO COMPORTAMENTAL pode dar informações sobre o caráter, sobre uma época, saúde física, uma circunstância específica, clima, roupas, etc. Geralmente é definido pelo caráter de uma pessoa ou pela época e local nos quais ela vive. Também pode ter um pensamento ou intenção por trás. Um GESTO COMPORTAMENTAL pode ser dividido e trabalhado em GESTO PRIVADO e GESTO PÚBLICO, distinguidos por ações que são feitas quando sozinho ou quando sob atenção ou proximidade de outros.
2. GESTO EXPRESSIVO. Expressa um estado interior, uma emoção, um desejo, uma ideia ou valor. É abstrato e simbólico em vez de representativo. É universal e atemporal e não é algo que você veria alguém fazendo normalmente num mercado ou metrô. Por exemplo, um GESTO EXPRESSIVO deve ser expressivo de, ou capaz de veicular, emoções como “alegria”, “dor” ou “raiva”. Ou deve expressar a essência interior de Hamlet como um dado ator a sente. Ou, numa produção de Tchékhov, você pode criar e trabalhar com GESTOS EXPRESSIVOS do tempo ou para expressar “tempo”, “memória” ou “Moscou”.
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Tradução de Diogo Liberano.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 9-10.
T O P O G R A F I A
O panorama (a vista), o padrão de piso, o design que criamos em movimento pelo espaço. Na definição da vista, por exemplo, podemos decidir que a área mais baixa do palco tem grande densidade, o que dificulta o movimento através dela, enquanto a área de cima tem uma densidade menor e, portanto, envolve maior fluidez e tempos mais rápidos. Para entender o padrão de piso, imagine que o fundo dos seus pés estão pintados de vermelho; assim que você se movimento pelo espaço, a imagem que se forma no chão é o padrão de piso que evolui no correr do tempo. Em adição, uma encenação ou marcação de uma performance sempre envolve escolhas sobre o tamanho e a forma do espaço em que trabalhamos. Por exemplo, nós podemos escolher trabalhar em uma faixa estreita de três pés por toda a área baixa do palco ou numa enorme forma triangular que cobre todo o chão, etc.
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Tradução de Diogo Liberano.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 11-12.
F O R M A
O contorno que o corpo (ou corpos) faz(em) no espaço. Toda Forma pode ser dividida em Forma com (1) linhas; (2) curvas; (3) uma combinação de linhas e curvas.
Portanto, no treinamento com Viewpoints, nós podemos criar Formas que são arredondadas, formas que são angulares e formas que são uma mistura dessas duas.
Somado a isso, uma Forma também pode ser (1) sem movimento; (2) em movimento (pelo espaço).
Por último, Forma pode ser feita por uma das três maneiras: (1) com o corpo no espaço; (2) com o corpo em relação com à arquitetura (criando Formas); (3) o corpo em relação com outros corpos (criando Formas).
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Tradução de Diogo Liberano.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 9.
R E L A Ç Ã O_E S P A C I A L
A distância entre coisas no palco, especialmente (1) um corpo para outro; (2) um corpo (ou corpos) para um grupo de corpos; (3) o corpo para a arquitetura.
Qual é a gama total de possibilidades de distâncias entre coisas no palco? Que tipos de agrupamentos nos permitem ver com maior clareza uma imagem no palco? Quais agrupamentos sugerem um acontecimento ou emoção, expressam uma dinâmica? Tanto na vida real como no palco, nós tendemos a nos posicionar a dois ou três pés de distância de quem estamos conversando. Quando começamos a atentar para a possibilidade expressiva da Relação Espacial sobre o palco, começamos também a trabalhar com menos educação, porém, com distâncias mais dinâmicas de extrema aproximação ou extremo afastamento.
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Tradução de Diogo Liberano.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 11.
A R Q U I T E T U R A
O ambiente físico no qual você está trabalhando e como a consciência dele afeta o seu movimento. Quantas vezes assistimos à peças em que há um cenário suntuoso e intricado cobrindo todo o palco e os atores, ainda assim, permanecem com dificuldade na exploração da arquitetura que os envolve? No trabalho da Arquitetura como Viewpoint, nós aprendemos a dançar com o espaço, a estar em diálogo com a sala, a deixar o movimento (especialmente Forma e Gesto) evoluir para fora de nosso próprio espaço. Arquitetura é dividida em:
- MASSA SÓLIDA. Paredes, chãos, tetos, mobiliário, janelas, portas, etc;
- TEXTURA. Se a massa sólida é de madeira ou metal ou tecido modifica o tipo de movimento que criamos em relação com ela;
- LUZ. As fontes de luz na sala, as sombras que fazemos em relação a estas fontes, etc;
- COR. Criando movimento a partir das cores no espaço, como uma cadeira vermelha entre inúmeras outras pretas afetaria a nossa coreografia em relação a ela;
- SOM. Som criado pela arquitetura e a partir dela, o som dos pés no chão, o ranger de uma porta, etc.
No trabalho com Arquitetura nós criamos metáforas espaciais, dando forma a sentimentos como “eu estou contra a parede”, “preso entre as rachaduras”, “preso”, “perdido no espaço”, “no limiar”, “alto como uma pipa”, etc.
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Tradução de Diogo Liberano.
BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 10-11.
terça-feira, 21 de junho de 2011
ensaio 39
21/06/11, unirio, sala 505
diogo, dominique, fred, flávia, marília, nina e vítor.
FECHAMENTO DO CRONOGRAMA DE ENSAIOS.
TEXTO/PAPO DOSTOIEVSKIANO
Discussão sobre Personagens
RITA
se preocupa com a reunião dos amigos
chama atenção para a sua religiosidade
desejo de ter uma vida profissional
flerte com novas possibilidades para a sua vida (desejo de expansão)
mas suas expansões não ecoam, apesar de tentar
talvez porque esteja à espera da participação do outro
ela tem uma coisa muito simbiótica
capacidade de se magoar pela não-participação do outro
prática no sentido afetivo (se não for isso, o que justifica a amizade?)
ODILON
as palavras não escapolem da boca do Odilon, as palavras acontecem
só que existem coisas que rendem, que surgem do seu íntimo
humor embutido de ironia
ele não quer se deixar levar numa depressão
pensar na partida dele (logo após o enterro) e na volta (quase dois meses depois que partiu)
como ele chega? de frente aos amigos que “abandonou”?
sedutor, blasè, raiva
ele não fala a poesia, a poesia se faz depois em que o lê (e vê)
não ficar refém nem da dor nem da poesia
CECÍLIA
lista, algo muito obsessivo – surreal
denúncia da fraqueza dela, de sua dor
de se agarrar a nomes e catalogações
tudo dentro de um formato
para não perder
para não ter liberdade suficiente para doer
ela é automática, um pouco histérica
o fazer da lista talvez seja algo inconsciente
lógica um pouco mecânica da lista
trazer o bicho para que fiquem juntos com eles
ANDRÉIA
grosseria (não ser apenas isso)
ela tá tentando falar sobre o assunto
incômodo primeiro de estar ali sem compreender a situação (falta um)
as grosserias não visam calar
está vazando
a melhor amiga morreu
afetação instantânea!
resposta kinestética
kinesfera diferenciada para odilon
INÁCIO
humor e piadinhas (todos os amigos expressam a dor do sofrimento de uma maneira muito possível)
lugares possíveis de pessoas que sofrem a morte de uma amiga
aparentemente, ele não se revela
não quer enfrentar o dragão
ele escapole, foge para outro lugar
e ele foge pela piada, pela graça
mais reservado, não divide tudo
qual é o caráter dessas piadas?
lógica do videoclipe
inácio não ri (?!)
não tolerar o chororô
não expor, ao mesmo tempo, todo o seu histórico
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quinta-feira, 16 de junho de 2011
ensaio 36
16/06/11, apto (novo) da marília, sala
diogo, dominique, fred, flávia, marília, nina e vítor
ESPAÇO
AO SOM DE BRIAN ENO
o som que vem de fora para dentro da cena (e não se explica o porquê);
cê tá maluco, fechou a porto comigo lá fora?!;
andréia entra lenta com seu sapato;
O DRAGÃO APARECEU NO QUARTO. TINHA UM CORDÃO COM PINGENTE DE DRAGÃO.
TEXTO
10h56/11h30 > 34 minutos
PRÓLOGO – ESCRITA AUTOMÁTICA
CENA UM – DESPEDIDA DO IDEAL
CENA DOIS – MEDIDA DA TRAJETÓRIA
12h00/12h36 > 36 minutos
quarta-feira, 15 de junho de 2011
um dia Lilla no outro Joana...
O narrador conta a história do dia em que é convidado para um "jantar artístico" na casa do casal Auersberger da alta sociedade de Viena. O casal convida também um ator que no momento encena a peça "O pato selvagem" de Ibsen para o jantar, por isso o tal título. O convite ao jantar é feito no dia em que os amigos se reecontram para o enterro da amiga em comum Joana, que se suicidara.
Alguns trechos do livro:
"...eu próprio fora informado pouco antes de sair à rua naquele dia, pela amiga de infância de Joana em Kilb, que Joana se enforacara; primeiro, essa amiga, a dona do armazém de Kilb, não quis dizer ao telefone que Joana se enforcara, a amiga disse ao telefone que ela morrera, mas eu na hora respondi que Joana não morrera, ela se matara, e que ela, a amiga, certamente sabia de que maneira, mas não queria me contar; as pessoas do interior têm ainda mais inibição do que as da cidade para dizerem com clareza que uma pessoa se matou, e acham muito difícil dizer como foi; pensei imediatamente: a Joana se enforcou, na verdade já dissera no telefone à dona do armazém: a Joana se matou, e a dona do armazém ficara atônita e respondera apenas sim. Pessoas como Joana se enforcam, não se jogam num rio nem saltam de um quarto andar, pegam uma corda, amarram-na habilmente e deixam-se cair no laço. Bailarinas, atrizes, disse no telefone à dona do armazém, enforcam-se...."
"...Enquanto isso o Auersberger colocara um disco com o Bolero, exatamente a música que a Joana mais gostava. O Auersberger tinha querido recordar a Joana com esse Bolero, e colocara o Bolero intencionalmente no toca-discos, pensei. E com efeito, pensei novamente na Joana, estimulado pelos primeiros compassos do Bolero, na Joana e no seu enterro especialmente. Primeiro eu considerara deselegante o Auersberger colocar logo agora o Bolero; possivelmente não era isso, era uma boa idéia, embora pérfida, transformar esse jantar mais ou menos horrendo como jantar artístico, numa lembrança da Joana. Se antes de o Auersberger tocar o Bolero eu estava querendo me levantar e ir embora, agora fiquei sentado com prazer, de repente num belo estado de indiferença, contemplando as imagens do enterro, a cara da dona do armazém....semprei gostei de ouvir o Bolero, e a Joana o tocava sempre que trabalhava com alunos talentosos no seu estúdio de movimento; no fundo, o Bolero era a música pela qual ela orientava toda a sua arte do movimento, e a sua doutrina do movimento, pensei, ouvindo o Bolero de olhos fechados. Como é bonito ficar sentimental de vez em quando, pensei, e não tive a menor dificuldade de agora ver a Joana, a artista do movimento, que teve tods as possibilidades de ser feliz e no afinal foi somente infeliz. Ouvi a sua voz e alegrei-me com suas frases, seu riso, sua receptividade para tudo o que era belo, pois Joana tinha esse dom como ninguém mais no mundo, de ver sempre também o belo, ao lado da cruel, destrutiva, aniquiladora feiúra, portanto tinha o dom que pouquíssimas pessoas utilizam. Mas também esse dom não lhe adiantou nada, pensei. Ela foi a Viena, e deixou que Viena a devorasse, de Viena correu pra casa pra se enforcar..."
segunda-feira, 13 de junho de 2011
ensaio 35
13/06/11, unirio, sala 602
diogo, dominique, fred, flávia, marília, nina e vítor
TRABALHO COM ANDAMENTO, DURAÇÃO…
Ao som de Philip Glass
No bater das palmas, alternar a velocidade do andar (quantos tipos distintos de rápido ou lento podemos ter?);
Som de marteladas no chão quando os atores correm (como ser ágil e silencioso? como ser lento e barulhento? como somar em si opostos?)
O jogo com andamentos e durações é uma forma de estabelecer atmosferas e selar o encontro.
LENÇO.
Ao som de Philip Glass, Beirut, Florence & the Machine, NX Zero e Timbaland.
RAIA.
Nina, Rita, Vítor, Cecília, Inácio, Odilon, Fred, Andréia, Dominique e Marília.
Se agem assim pelo movimento, é possível, eu sugiro, que tenham eles também o discurso assim tão distinto. Como olhar por pontos de vista diferentes aqui que falamos, a opinião que expressamos, a crença na qual acreditamos?
Duas deitadas lentas: Metamorphosis Three – Philip Glass
Dois pulos ao mesmo tempo: Dead Finks Don’t Talk – Brian Eno
Duas viradas para frente ao mesmo tempo: I’ll Come Running – Brian Eno
Uma proporção 4:1: Hair – Lady Gaga
Um tempo lentíssimo: tirar a música
Pela primeira vez eu vejo vocês de fato fazendo frente à agitação de uma música. Sabendo brincar com ele, mas também abandoná-la. Isso reforça a atmosfera que reina entre vocês.
Deixa o gesto entrar devagar pra não perder a resposta entre vocês.
A repetição de um único gesto e dos gestos dos outros funciona perfeitamente bem. Sobretudo, quando não sublinhamos o uso do gesto. Soa como um organismo só, vocês. Mas um organismo divergente, que se move de maneiras muito distintas, porém, costurado por sutilezas e por sensações, quando não idênticas, muito parecidas.
Trabalho com o Universo Gestual da própria personagem. Vendo-os assim, soltos, fico pensando no encontro do gestual com o verbo. No encontro de um desses gestos com uma dada atmosfera.
Possibilidade de lançar um gesto para fora da raia, como se fosse preciso não revelá-lo para quem está dentro do jogo, mas justamente tirá-lo de dentro. E a possibilidade de entregar um gesto pra fora e entregar um gesto ao outro. Sem repeti-lo, apenas recebendo-o.
Neroli Music – Brian Eno
IMPROVISAÇÃO (como atores e não como personagens)
Nina traz aos atores um comentário sobre algo que leu e que lembrou a ela o processo do espetáculo COMO CAVALGAR UM DRAGÃO. Os atores, conforme conversam sobre, devem jogar com a possibilidade de se afetarem pelo o que é dito e discutido.
NINA - Eu não entendo muito de futebol, mas o Vasco foi campeão na semana passada e as pessoas ficaram muito felizes e juntas, seilá, parecia carnaval. Eu fiquei super emocionada com o calor assim, ai eu cheguei em casa e fui procurar por vídeos de torcida. Eu nunca tive interesse por futebol, mas eu fiquei tão emocionada com o Vasco. Eu fiquei pensando na união daquelas pessoas ali. É a união, não pelos jogadores, mas por uma bandeira. Elas são muito unidas naquele momento. Elas fazem todas muito sentido umas pras outras e eu fico me perguntando qual é o lugar desse encontro e eu lembrei de DRAGÃO pela liga entre as pessoas. Eu lembrei de DRAGÃO por causa do Vasco.
Você é vascaína?
Eu nunca fui disso de futebol.
Eu sou. Eu fui na semi-final.
E você ficou emocionada?
Eu não sei se eu acho bonito.
Eu acho bonito.
Eu não sei se eu acho bonito.
Eu acho meio uma alienação.
Eu me sinto meio ET.
Meu pai é torcedor.
Qual é a vantagem de ganhar ou de perder
As coisas não precisam ser feitas por vantagem ou não
Quantas formas de ser alienados poderiam ser boas?
Eu chamaria isso de paixão. E não de alienação.
Sei lá, esse é jeito dessas pessoas.
Eu nem sou alienado lendo, porque eu não leio mundo.
Talvez você seja alienado pra população brasileira.
Você não compartilha.
Perguntaram pro Leminski, pra que poesia?
Ele disse, pra que um gol do Zico? É bonito, só isso.
As pessoas matam e morrem por causa disso.
É uma forma de se unir de estar na mesma vibração.
Eu fui uma vez no Maracanã pra fazer prova.
Alienação pra mim é desmedido.
É importante que as pessoas matem e morram por uma coisa que não seja dinheiro.
Estranho isso, né?
Se você fosse morta por isso?
Saúde.
Eu prefiro ficar na inconformidade.
Vai sofrer muito.
Faz parte da vida.
Você tambémm?
Pô, pra caralho. Mas uma vez,
Eu torço pro Palmeiras.
Eu tava aqui no Rio e fui assistir final de campeonato, no Maracanã e só tinha Flamenguista.
Na hora do gol, o Flamengo fez uma HOLA ao redor do Maracanã.
Eu detesto futebol, mas sei lá, são poucas coisas que unem as pessoas desse jeito.
Quando me pediam pra correr atrás da bola, eu achava super ridículo.
Brasil, Copa do Mundo, você não gosta?
Ai é que tá, nem Copa do Mundo eu me reúno,
E falta?
É só cair naquele quadrado.
O jogador pode ser expulso por isso, mesmo que não atinja.
E impedimento, vocês entendem?
Não vale. O time inteiro fica impedido. O time inteiro tem que estar junto.
Você tá ultrapassando a trave, volta pra cá.
Tem a linha imaginária.
Que bosta de futuro.
É isso que é torcer, bem vindo ao mundo da paixão.
Eu gosto de vôlei.
Um jogador de futebol que viesse aqui pra um ensaio ia achar a gente um tanto alienado.
Depende do ponto de vista.
Eu já fiz um gol olímpico.
Eu fiquei alienado com aquele monte de gente em cima de mim.
Podia ter uma bola aqui pra gente brincar.
Eu tenho uma bola de handball em casa.
Bate três?
Três cortes!
Só sei fazer gol olímpico.
Marília sugeriu a banda DEAD CAN DANCE.
CONVERSA.
Pensar o personagem como uma união de dois discursos (corporal e verbal), que podem ser dissociados e usados em conjunto ou separadamente. O discurso corporal se manifesta pelo uso do UNIVERSO GESTUAL da personagem. O discurso verbal se manifesta pelas opiniões características de cada personagem, de seu nome e de seu jargão.
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas, livre, bem livre
é mesmo estar morto.LIBERDADE, Carlos Drummond de Andrade
Condicionamento. Re-educação corporal.
ANDAMENTO > metrônomo.
DURAÇÃO > cronômetro.
O gesto expressivo é um desdobramento de um gesto que era comportamental.
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sábado, 11 de junho de 2011
O ano do dragão,
A verdade é que a Lilla amava Harry Potter. Na madrugada do dia 15 de julho de 2011, uma sexta-feira, ela estava na Barra da Tijuca vendo a estreia do episódio final da série. Na bolsa, tinha levado chocolate e uma caixa imensa de lenços de papel. Saiu chorando e reclamando o fato do filme ter sido o menor de toda a série. No sábado, dia 16 de julho, ela acordou Andréia com um telefonema aproximadamente às 08h15. As amigas se encontraram depois do almoço e pedalaram sem parar até o início da noite. Lilla obrigou Andréia a jantar com ela. Naquela madrugada, com as pernas doloridas de felicidade, na virada do dia 16 para o 17, Letícia pediu licença às coisas de seu quarto e se jogou no mundo, literalmente.
Como não quis chamar muita atenção, ela apenas moveu, lenta, uma das duas cortinas de sua janela. Encostou-se contra a janela para dar uma última olhada em seu quarto. Viu Matisse, preso na parede em frente à cama. Viu sobre a cama o lençol dos cavalinhos agitados pela tentativa de um sono já tão distante. Ela pensou, vendo o mosaico de cores que seu quarto havia se transformado: minha tela tem movimento.
Depois, avançou à cama, pegando sobre ela uma caneta e um pequeno diário. Guardou-os dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Desligou o interruptor da parede e acendeu o pequeno abajur com franjas. O quarto se aqueceu rapidamente. Ela foi em direção ao guarda-roupas, abriu a primeira gaveta e escolheu, lentamente, as cores de cada par de meias. Sentou-se na cama, colocou um par, depois outro e ainda outro mais. Pisou macia sobre o chão de madeira corrida e, agora, escorregando, deslizou novamente em direção à janela.
Recostou-se para ver o quarto, novamente, mas seu olhar foi tragado pelo móbile das pequenas libélulas de vidro, preso na quina superior da janela. Estão agitadas, constatou. E então fechou os olhos e soprou nelas um ventinho quente que as pudesse acalmar. Estava tão frio. As libélulas trocaram confidências ao som de ligeiros trincos e Letícia fez força com os dois braços para se sentar no parapeito. Abriu os olhos, pela última vez, apenas para conferir se a pelúcia ia ver realmente aquilo que ela estava pronta para realizar.
Feito isso, fechou os olhos também pela última vez. Subiu as pernas rumo ao parapeito, ergueu-se sem usar mão ou braço. O rosto cândido e frio esbarrou de leve nas libélulas informando à Lilla que ela estava no máximo daquilo que poderia se chamar de alto. Resmungou um sorriso leve quando uma das libélulas passou a asa fria pela ponta de seu nariz. Recuou-se para, enfim, voltar-se ao que restava da vida. Deu um passo com o pé esquerdo. Deu outro, em seguida, com o direito. Avançou escorregando, lentamente, dedo a dedo, mas,
o polegar do pé direito esbarrou num dos sete mini-cactos enfileirados no parapeito. E então o tempo parou. Lilla ouviu o potinho de barro batendo no mármore frio do parapeito. Ouviu as pequenas pedrinhas brancas rolarem janela abaixo. Tinha dado a sua largada. Vamos eu e o cacto. E o vasinho rolou, hesitante. Entre ir e não ir, entre partir e ficar. Mas a escolha já feita fez o tempo descongelar:
E então vieram os corpos, de Letícia e de seu mini-cacto, dançando o desejo de pertencimento, envoltos na efêmera ilusão do tempo - que é o vento –, para, enfim, se cravar no chão do mundo. Para outra vez, de outra forma, com outro princípio, germinar a vida.
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