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domingo, 24 de fevereiro de 2013

suicídio ou morte ---

confesso que gira em torno de uma coisa, ou de outra. não sei dizer ao certo, mas o espanto do homem - de nós mesmos - frente ao inevitável é aquilo que dá força a este projeto. quero dizer: não é sobre isso o projeto. não é sobre a morte, nem mesmo sobre o suicídio. dragão almeja apresentar uma situação na qual cinco pessoas se vêem envolvidas no suicídio de uma pessoa em comum. mais que sua morte, mais que a forma pela qual essa pessoa atravessou a vida, importa pensar em quem fica. importa lançar olhar sobre aquilo que sobra à vida. o espanto. a desmedida. enfim... aquilo que não se explica.

por isso a situação. a situação como forma de preparar o terreno para a ousadia que virá. e que veio. mudando de assunto, caio de imediato no naturalismo. é preciso estudar. mas não parece que a vida escapou da vida e que agora, talvez, resta ao teatro a homérica tarefa de costurar de volta vida à vida? eu penso que sim, infelizmente, hoje, mais que nunca, eu penso que cabe ao teatro a solução que não veio. cabe ao teatro ajustar a vida gangrenada. eu sei lá, parece muito, parece impossível, mas desde quando dificuldade e impossível são castração à criação sensível?

portanto, a situação é pensada como uma concentração de vida. uma overdose de vida. de susto, de medo, de espanto. como imaginar esse processo? essa preparação? dragão talvez esteja querendo ser, antes de peça, esteja querendo ser a nossa própria tentativa de afetação pelo outro. em cena, mais do que falsidade, mais do que facilidade em ser drama, em chorar, sofrer isso e aquilo, em cena colocamos a nossa persistência sobre o outro, a nossa tenaz tentativa de fazer de nosso corpo - e espetáculo - possibilidade de encontro com aquele que nos difere. e também resposta à falta deixada por quem sequer conhecemos.

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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Aproximação ---

São só vontades, intuições, colisões inventadas. Eu fiquei pensando - a coisa do apartamento - que seria interessante que a dramaturgia do acontecimento (mais trabalhada em outra espetáculo, VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA), agora pudesse se transformar em dramaturgia da situação. Temos uma situação dada, entendida, já revelada. E, no entanto, brincamos de situacionar. De nos colocar em situação.

Penso: sinto que a obra teatral deva nos colocar frente ao desconhecido, frente ao repressado, ao não-assumido (frente ao inconsciente - talvez nosso, talvez por isso mesmo, coletivo). Não pode haver pudor, nem frente ao desejo, nem frente ao terror. Logo, experimentar uma situação é fazer do teatro espaço para a vida (que se escondeu dentro de si, amedrontada). Eu não temo o suicídio porque a obra me deu a possibilidade de testar em meu corpo a sua façanha, a sua ousadia, a sua explosão e o consumo que seu fogo pode causar (ao meu corpo, cabeça e sentidos).

O teatro não deveria ser este edifício? Dos afetos? Da transformação? O corpo não deveria acessar o teatro - corpo-ator + corpo-espectador - e sair queimado, violado, alterado? A cada andar deste edifício uma legião de desconhecidos moradores, de desconhecidos afetos, pedindo pele na qual aportar. Afetos na ânsia por acontecimento.


Eu fico pensando na dramaturgia da situação e penso, inevitavelmente, em roteiro. Penso em performance, mas apenas no sentido de que temos o espetáculo (não queremos brincar de improvisar). Queremos ser sempre mentirosos e vivos ao mesmo tempo. A cada noite, o mesmo drama, mas verdadeiramente. Pois a cada noite, nos apresentamos em um novo espaço (e a psicologia do drama - do personagem que se suicida - será apenas dada pelo espaço e não previamente).


Quero dizer: a sinopse prevê o reencontro de cinco amigos após o suicídio de um amigo em comum. Quero dizer: eles se encontram no apartamento desse amigo que se mata - logo, é desse apartamento que a ficção nasce, mesmo tendo sido premeditada. A cada novo espaço ocupado (que fique claro: faremos a peça em apartamentos), um novo drama, uma nova situação (visto termos mudado o nosso amigo falecido).

Estaremos experimentando a morte do dono da casa. E a nossa capacidade de produzir e de lhe ser afeto.