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sábado, 11 de junho de 2011

O ano do dragão,

A verdade é que a Lilla amava Harry Potter. Na madrugada do dia 15 de julho de 2011, uma sexta-feira, ela estava na Barra da Tijuca vendo a estreia do episódio final da série. Na bolsa, tinha levado chocolate e uma caixa imensa de lenços de papel. Saiu chorando e reclamando o fato do filme ter sido o menor de toda a série. No sábado, dia 16 de julho, ela acordou Andréia com um telefonema aproximadamente às 08h15. As amigas se encontraram depois do almoço e pedalaram sem parar até o início da noite. Lilla obrigou Andréia a jantar com ela. Naquela madrugada, com as pernas doloridas de felicidade, na virada do dia 16 para o 17, Letícia pediu licença às coisas de seu quarto e se jogou no mundo, literalmente.

Lilla morreu no dia 17 de julho de 2011

Como não quis chamar muita atenção, ela apenas moveu, lenta, uma das duas cortinas de sua janela. Encostou-se contra a janela para dar uma última olhada em seu quarto. Viu Matisse, preso na parede em frente à cama. Viu sobre a cama o lençol dos cavalinhos agitados pela tentativa de um sono já tão distante. Ela pensou, vendo o mosaico de cores que seu quarto havia se transformado: minha tela tem movimento.

Depois, avançou à cama, pegando sobre ela uma caneta e um pequeno diário. Guardou-os dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Desligou o interruptor da parede e acendeu o pequeno abajur com franjas. O quarto se aqueceu rapidamente. Ela foi em direção ao guarda-roupas, abriu a primeira gaveta e escolheu, lentamente, as cores de cada par de meias. Sentou-se na cama, colocou um par, depois outro e ainda outro mais. Pisou macia sobre o chão de madeira corrida e, agora, escorregando, deslizou novamente em direção à janela.

Recostou-se para ver o quarto, novamente, mas seu olhar foi tragado pelo móbile das pequenas libélulas de vidro, preso na quina superior da janela. Estão agitadas, constatou. E então fechou os olhos e soprou nelas um ventinho quente que as pudesse acalmar. Estava tão frio. As libélulas trocaram confidências ao som de ligeiros trincos e Letícia fez força com os dois braços para se sentar no parapeito. Abriu os olhos, pela última vez, apenas para conferir se a pelúcia ia ver realmente aquilo que ela estava pronta para realizar.

Feito isso, fechou os olhos também pela última vez. Subiu as pernas rumo ao parapeito, ergueu-se sem usar mão ou braço. O rosto cândido e frio esbarrou de leve nas libélulas informando à Lilla que ela estava no máximo daquilo que poderia se chamar de alto. Resmungou um sorriso leve quando uma das libélulas passou a asa fria pela ponta de seu nariz. Recuou-se para, enfim, voltar-se ao que restava da vida. Deu um passo com o pé esquerdo. Deu outro, em seguida, com o direito. Avançou escorregando, lentamente, dedo a dedo, mas,

o polegar do pé direito esbarrou num dos sete mini-cactos enfileirados no parapeito. E então o tempo parou. Lilla ouviu o potinho de barro batendo no mármore frio do parapeito. Ouviu as pequenas pedrinhas brancas rolarem janela abaixo. Tinha dado a sua largada. Vamos eu e o cacto. E o vasinho rolou, hesitante. Entre ir e não ir, entre partir e ficar. Mas a escolha já feita fez o tempo descongelar:

E então vieram os corpos, de Letícia e de seu mini-cacto, dançando o desejo de pertencimento, envoltos na efêmera ilusão do tempo - que é o vento –, para, enfim, se cravar no chão do mundo. Para outra vez, de outra forma, com outro princípio, germinar a vida.

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