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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CARTA DELA

27 de janeiro

Meus amigos,

Parece-me que a criação e a própria vida só se definem por uma espécie de rigor, portanto de crueldade básica que leva as coisas ao seu fim inelutável, seja a que preço for. A existência pelo esforço é uma crueldade, saindo de seu repouso e se distendendo até o ser. No fogo de vida, no apetite de vida, no impulso irracional para a vida há uma espécie de maldade inicial: o desejo de eros é uma crueldade, pois passa por cima das contingências; a morte é crueldade, a ressurreição é crueldade, a transfiguração é crueldade, pois em todos os sentidos e num mundo circular e fechado não há lugar para a verdadeira morte, pois uma ascensão é um dilaceramento, pois o espaço fechado é alimentado de vidas e cada vida mais forte passa através das outras, portanto as devora num massacre que é uma transfiguração e um bem. No mundo manifesto o mal é a lei permanente e o que é bem é um esforço e já uma crueldade acrescida a outra. É com crueldade que se coagulam as coisas, que se formam os planos do criado. O bem está sempre na face externa, mas a face interna é um mal. Mal que será reduzido com o tempo, mas no instante supremo em que tudo o que existiu estiver prestes a retornar ao caos.

fiquem em paz.

7 comentários:

Flávia Naves disse...

encontrei essa carta na casa dela. não entendo bem o que ela quer dizer, o que ela diz sobre a crueldade, o que significa isso? ela diz que o mal é a lei permanente e que o bem é um esforço, o que isso quer dizer? A vida pra ela se limitava a caos, crueldade e maldade? porque seus olhos só viam fogo onde também encontramos água? entendem? essa carta é um massacre, não sei o que ela andou lendo nem vendo, mas acho que ela foi tomada por uma espécie de delírio, só pode ser isso, você não acha?

Marília Misailidis disse...

Sim.Acho que no contato com a realidade ela se contaminou com a Verdade existente nela e esqueceu-se que na realidade também há Amor.Seu olhar se contaminou com o sinismo e talvez tenha lhe faltado esperança para resgatar o Amor.Não consigo deixar de ser tomada pelo ego e pensar:se tinhamos uns aos outros,como ela pode dizer isso?Como é misterioso o elemento que abre e fecha portas dentro de cada um.Mesmo dentro das pessoas mais próximas,mesmo dentro de nós mesmos.Não?

Marília Misailidis disse...

Quando digo Verdade e Amor,assim com letra maiúscula, é porque lembro de uma história que encontrei há tempos atrás.Ela dizia assim:

"quando entramos no mar num dia quente de verão,podemos sentir a água fresca refrescar e ninar nosso corpo com suas ondas.Chamo esta sensação de Amor.Contudo,quem já não esteve no mar e sentiu-se preso em sua correnteza,revolto por uma onda,com medo de não voltar a praia ou a superfície?Chamo esta sensação de Verdade.O mar não é só fresco ou só correnteza.O mar é as duas coisas ao mesmo tempo.A isso chama-se realidade."

Marília Misailidis disse...

E "fiquem em paz" ?!!!!
Como ela pode dizer essa m...toda e dizer isso!!!

Marília Misailidis disse...

Caramba,não consigo sair daqui.Não consigo parar de falar.Tenho mais o que fazer e não saio daqui.

Enfim,tinha que dizer que me veio a cabeça que a morte dela levantou para mim essas questões:

-Ela não se entregou a morte,ela resistiu a vida.Eu resisto?

-Se o outro é uma parte de mim que está "guardada" fora de mim:que parte de mim ela levou consigo?

-Que parte dela ela deixou comigo?

-Eu sobrevivo sem essa parte?

-Eu quero sobreviver,resistir a vida ou viver?Ou melhor,como possivelmente devo querer um pouco de tudo,quanto quero de cada uma dessas coisas?

-Encontro vestigios dessas questões na casa dela?

- Quais são os meus vestígios?

Diogo Liberano disse...

não acredito em nenhuma palavra. não acredito que tenha sido ela. não acredito no fiquem em paz. não acredito que havia tanta confusão assim no pensar dela. não acredito

Flávia Naves disse...

Marília, essas suas postagens estão lindas. obrigada