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quinta-feira, 17 de março de 2011

ensaio 01

16/03, unirio, sala 602
diogo, flávia, marília, fred, nina, vítor e dominique

eles enfileirados assim tão próximos. corpos colados. eles ali juntos. são potentes para fazer nascer um drama. caminham. nina tem um sorriso no rosto, marília, vítor e fred têm cabelos novos. dodô chegou um pouco depois.

flávia agora massageia a dominique, enquanto as duas duplas massageam-se, um ao outro. gosto da possibilidade de pensarmos como um pode se aproveitar do outro. eles estão suando. e eu aqui vendo neles outra possibilidade se escrevendo que não o verbo. eles terão que me convencer, que talvez exista de fato alguma força nisso.

são ainda corpos estranhos, um ao outro. não quer dizer que não são capazes de aglutinar. quer dizer que ainda têm pontas. mas será que devemos aparar?

fred e vítor. nina e marília. flávia e domique. dominique e fred. flávia e marília. nina e vítor.

fred alonga a perna sobre o ombro da dodô. nina e vítor pulam. o corpo de quem é usado é sempre mais neutro, é página em branco para os desastres do outro, que conduz o jogo.

na palma a gente troca. quem é que tá usando, quem é que tá recebendo? vítor tem quase sempre um olhar deslumbrado, como se estivesse sempre a dizer alguma coisa. outros têm predileção pelo olhar semi-cerrado. como se quisessem segurar dentro de si alguma outra coisa.

e eu aqui escrevendo sem parar. testando talvez a capacidade minha de ser sensível via palavras a tudo isso que me rodeia e acena.

nina puxa o quadril de dominique. fred massageia o pescoço entre as pernas da flávia. vítor estica-se tendo os braços de marília esticados. sorrisos, algumas risadas. sobretudo, ahs!!!, intermináveis.

respiração opressa. cabelos fora do eixo. eu aqui testando a possibilidade desse corpo ali mexido me evocar outra escrita. eu ainda e sempre me tentando ser sensível. olhando para lá sem me permitir olhar tanto tempo para o teclado.

caminham.

neutraliza, vítor.

a flávia é ótima nesse sentido.

minha cabeça dói. tudo bem.

1. 2 vezes. 3. não parar o movimento do saquinho.  nunca estancar. 4. 5 quedas. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12.  vamos tentar não dispersar. suam. fez firula demais. 13. 14. 15. 16. 17. 18. boa. 19. cuidado. te acertei? (dá para fazer uma cena inteira só por essa ótica). 20. 21. 22. vamos caminhando.

precisamos aprender a não ser muita informação.

neutraliza o olhar. neutraliza a máscara.

nada disso quer dizer freio ou impedimento. quer dizer guia. quer dizer indicação. quer dizer vem com a gente e experimente outra coisa.

a gente brinca com esse pano. deixar o corpo ser guiado pelo movimento do pano. é o que ele precisa e não o que você precisa.

TESTAR EM NÓS MESMOS A NECESSIDADE DO OUTRO.

acabo de perceber. o pano é o nosso dragão alado. é traiçoeiro, capaz de ir contigo e capaz de fazer peso – repentino. é preciso ter coluna para cavalgar um dragão. ele faz barulho com as asas. é capaz de te cegar a vista.

obrigado, meu deus. esse pano é também ela. é a existência dela presa ao real por um fio. é ela ali na troca da toalha da mesa. com a luz se acendendo no contra e deixando os meninos precisos na manipulação de sua existência quase que amorfa.

caminhando.

olho-os agora, de fora, e tenho certeza que poderiam ser acariciados por um dragão. pois há um desimpedimento em seus corpos. quase um abuso. algo que clama à profanação. 

na palma vocês voltam a caminhar. negociem agora um outro ritmo para o grupo. outro ritmo.

agrupamento pulado. eles parecem um grupo de soldados. eu sinto. talvez pelo barulho dos pés contra o chão de madeira desta sala.

pedir a eles que atentem para quando criam um mistério, quando uma informação dada é excessiva… não sei. há sempre o cuidado de não parecer que estamos podando aquilo que estamos apenas querendo medir.

recorte espacial. flávia os colocou num quarto. com duas janelas. esqueçam vocês, a negociação é com o grupo. ótimo, conseguiram resolver a finalização do exercício.

ok, gente. pode relaxar.

 

“o dia do enterro”

leitura: palavras difíceis. pontuação específica. a coisa da amizade de fato é a solução. mas como? sob quais formas diremos isso? podemos encontrar outras respostas mais concretas? tudo ainda é especulação. espero descobrí-la. gosto da voz grave da marília.

 

depoimentos em trinta segundos sobre o dia do enterro

vítor – o dia do enterro, né? o que eu lmebro é a falta a falta daquilo que tava do lado. o carisma. aquilo que me fazia rir e que se eu quiser não vou encontrar em lugar nenhum.

dodô – eh, eu acho que o momento do caixão fechando. acho que vai cavando um buraco maior. o buraco que já tá vai se abrindo você entende que acabou. que não tem mais. uma flor vermelha.

fred – o que me marcou no dia de hoje é que eu acho que eu reconheci um pouco mais de vocês, das conversas todas que a gente teve, eu sentia falta da troca, a gente jogou um pouco mais, e na hora da leitura >>> ah, foi um dia muito triste. na verdade, eu acho que sofri muito mais pelo sofrimento de vocês. eu me sensibilizei mais pela tristeza de quem tava vivo. a tristeza daquela mãe foi surreal ver. pra mim ver aquela mãe sofrendo me deixou muito mais triste.

marília – eu não entendi nada. as pessoas falando umas coisas, o caixão fechando, o tempo parece que parou, aquelas coisas da pelúcia, o irmão trazendo aqueles bichos de pelúcia. aquele beija-flor. foi muito bonito.

nina – eu acho que o que fica mais presente como memória não tem como não ser, é o corpo dela. o rosto dela. que só aparecia o rosto. e a certeza que apesar do corpo ali não era ela. colocar a mão, sentir o frio,a pele de borracha. sem vida. sem vida, você não precisa nem testar.

 

sobre as coisas que ficaram e que disseram

vítor – a flor rosa ficou. aquilo de testar e pegar com as mãos…

dôdô – a coisa do corpo vazio que não é mais. a nossa amiga ali que é só uma capa dura que não existe vida e o beija-flor também. e acho que a mãe, a dor da mãe acho que às vezes me fez parecer que a gente não tinha o direito de sentir tanta dor talvez.

fred – o corpo de borracha . a dor da mãe, o beija-flor, tentar tocar, a dor da mãe, e saber que não tem vida, a tentativa, dialogando com o beija flor, aqueles insetos todos na cara no rosto o diálogo entre o beija-flor e os mosquitos.

marília – eu não queria estar ali dentro daquele lugar. eu queria estar na grama com ela. o que era aquela maquiagem? >>> mão de borracha. caixão. fechando. pessoas. a mãe chora muito mas que é uma coisa que é diferente da gente junto. está claro que aquela não é ela realmente. mas ainda assim tem alguma coisa dela lá que a gente perdeu e não tem mais.

nina – flor de… vermelha. a mãe sofrendo. ignorar o direito de a gente sofrer. as pessoas falam muito. não entender nada. o beija-flor. o beija-flor fica bastante.

 

em 30 segundos sobre um aspecto que você queira pegar desse dia

nina – o cemitério ele fica afastado do centro da cidade, você tem que pegar um caminho cinza da cidade. o cemitério é muito verde, parece que tudo que vai para lá é porque ganhou um prêmio, só que não. é muito tranquilo. o que fica é o cinza o verde e o silêncio.

vítor – já? o aspecto é um menino, eu lembro de um menino, sozinho, olhando para o nada, tudo cinza, procurando para mim uma amiga que eu tinha e que eu não via mais. o holocausto pra mim foi aquele dia.

dodô – corpo frio. a gente parecendo que queria trazer de volta alguma vida pra aquilo e ao mesmo tempo não sabendo se relacionar com aquela exposição do corpo que não é mais, mas que ao mesmo tempo é o que a gente se relacionou a vida toda.

fred – eu discordo da nina. aqueles celulares tocando. a gente não consegue se ausentar do mundo. as pessoas tinham os celulares tocando. a gente não teve aquele momento só com ela. a gente não foi respeitoso com a nossa amiga.

marília – como a gente ia saber que a gente ia passar o meio da semana com ela? aquela grama orvalhada.

 

sobre esse dia

nina – foi no meio do nada. foi um buraco no tempo que levou pra esse lugar verde e longe da cidade que eu nunca tinha estado antes. eu acho que apesar de ser uma coisa muito triste para todo mundo, me trouxe muita paz. eu me senti nem no final das contas; caraca. tocando no corpo. não é possível, foi embora. e quando você olha você vê que foi embora mesmo. que não tem mais nada com a gente, mais nada, foi para um lugar melhor eu acho. não tem nada a ver com dor, com finitude. o difícil do dia do enterro é que ele acaba. e tem o dia seguinte. e lidar com isso no sentido motor. tem que ser motor pra sua vida. não só contemplação. o aspecto negativo do dia do enterro é o dia seguinte. acho que…

fred – corpo borrajudo como é difícil continuar a gente atravessado pelo…

 

papéis

fred – era um lugar lindo, lindo, muito verde, a gente sentia uma paz interior muito grande e ao mesmo tempo por conta da morte dela, a gente não conseguiu vivenciar o paraíso. era muito grande, muito verde, tinham muitos microespaços…

dô – eu acho que por nervosismo a gente começou a rir em algum momento. eu também não sei explicar. acho que é uma forma de lidar com isso. porque foi um pouco vergonhoso.

vítor – sabe o que é que é cheiro de dor? é… não dá pra explicar o que que é. você cresce com uma pessoa, ela faz parte da sua história e acabou.

marília – é foi complicado isso de a gente não ter conversado, ficou assim sem resolver e no final eu não sabia o que ela tava pensando, ficou esse, eu nunca vou saber…

nina – é muito louco né porque você entra lá na capela e… nina apenas gesticula… ninguém ousa falar nada. é impossível. você reconhece a origem do silêncio, no silêncio não é que você não tem nada para dizer, é porque você tem tudo.

marília – gostava do som da risada dela. era tão particular. eu lembrei do som da risada dela. o silêncio. me deixa nervosa.

vítor – ela trouxe uma vez para mim um pente, de uma aldeia indígena da bahia, a gente cogitava, vamos se mudar pra lá, cadê a coragem pra visitar essa aldeira…

fred – tava muito quente, mas por mais que tivesse muito quente, tava todo mundo vestido de preto. um sol. depois uma fina chuva. e na hora que a gente tava indo pra casa, a gente viu um arco-íris.

 

fileira de depoimento negociado

sabe que no dia do enterro, depois eu fui numa sorveteria que a gente costumava ir e pedi um sorvete de tuti frutti, um sabor que eu odiava, mas que ela gostava. é uma luta diária. eu ainda vou tomar esse sorvete. não sei. é foda.

na verdade ela me constrangia nos modos, nos gostos. ela pedia uma pedra de gelo no café. eu falava: o quê?

eu acho que essa coisa de não ter que pedir licença. era do jeito que ela queria. parece que o mundo é maior. eu acho que… não sei. mas quando eu tava com ela eu podia ver o mundo maior. me iluminava.

filha da puta. filha da puta. filha da puta.

eu lembro que ela nunca falava, pelo menos pra mim, sobre problemas. isso mexe muito comigo agora. eu me sinto como um amigo que dividiu com ela apenas… ela desaparecia muito. ficava um período longe. um período sabático, ela dizia. ela sempre quis ser portadora de boas notícias. e a gente tem muito isso um com outro. verbalizar descontentamentos, tristezas. e parece que a minha relação com ela foi muito sublime. a gente não é só sublime. a gente tem um lado grotesco. eu queria ter tentado ajudar. eu nunca soube de nenhum problema dela. eu lembro que quando ela perdeu o irmão. ela me contou que ele havia morrido depois que tinha voltado do enterro. a minha relação com ela foi tutti frutti. e eu queria um pouco de chocolate amargo.

e se a gente tava aberto a vê-la e a senti-la de algum outro jeito.

como ela teria reagido se um de nós estivesse naquele caixão. eu não sei nem se ela teria ido. a fala das pessoas. o silêncio que diz tudo. aquelas frases feitas tipo agora ela tá melhor. como a gente tem dificuldade em aceitar o silêncio como resposta.

ah, deixa. deixa ela se descabelar.

quem vai ser o proximo?

que diferença faz?

o que mais me irritou foi aquele senhorzinho falando da bíblia. caralho, ela odiava isso.

aquela coisa toda. essa situação ridícula.

como a risada em alguns momentos é… você matou a galera que tava viva enterrando ela. como não é respeitoso. porque que todo mundo tem que sofrer do seu jeito?

eu te entendo.

eu não acho desrespeito.

cara, eu te conhecendo. tudo bem.

mas foi bom porque eu acho que a gente deu uma aliviada.

tem religião que curte a morte de outra forma.

tia anita.

Um comentário:

Fred disse...

só o começo.