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segunda-feira, 9 de maio de 2011

A casa perfeita gera filhos perfeitos que gera adultos com defeitos.

Já perdi 23 anos da minha vida e, não querendo perder nem mais 1 segundo me atiro pro mundo através da janela aberta logo ali na minha frente. Sem pensar na linha de chegada (ou nas chamadas pedras portuguesas da Barata Ribeiro), me concentro para desfrutar o máximo que este deslocamento pode me oferecer. A começar pelo peso, que eu sempre sustentei nos ombros. Este mesmo peso que encurvou a minha coluna e tensionou todos os músculos do meu corpo pelos últimos 276 meses: o peso das responsabilidades, dos compromissos, dos não-desapontamentos, do cumprir as ordens, de respeitar os prazos, de ter notas azuis no boletim, de levantar no ônibus pro velhinho sentar, de fazer a faculdade em tempo recorde, de falar “de nada” depois do “obrigado”, de dar “bom-dia” ao porteiro, de ser o melhor aluno, o melhor ator, o melhor amigo, o melhor filho... o melhor namorado mais bonito, o melhor cidadão mais engajado, o melhor professor mais inteligente, o melhor neto mais maduro, o melhor estagiário mais esforçado ou então o melhor recenseador mais simpático. Ser o melhor, na vida dele que está caindo, significava sofrer. Isso porque o melhor muita vezes beira o perfeito e perfeição não existe. Então, viver era tentar atingir algo inatingível. Agora, ele não tinha tempo de pensar. Se tivesse mais alguns poucos segundos, teria pensado na perfeição da queda. Se aprofundaria nos conceitos da física, da distância entre o corpo em movimento e o chão, a velocidade do ar, a lei da gravidade, os 9.8m\s², o deslocamento retilíneo uniforme, a aceleração centrípeta, o empuxo, a energia cinética ou mecânica ou potencial, a tração nas 4 rodas e a Terceira Lei de Newton. Ele teria estudado e saberia exatamente qual posição deveria estar, agora, para quebrar no máximo as 2 pernas, algumas costelas e seguir vivendo sua vida perfeitamente. Mas não. Agora ele era um outro. Um outro que não pensava nas conseqüências do futuro e que só queria se deliciar com o presente. Foi o gozo maior de liberdade. Pareceu a ele que “se atirar” era “viver”. E pareceu também que quando se atira na tentativa de viver se chega à morte. As pedras portuguesas abrem os braços e oferecem seu colo para meu conforto. Não desprezo nenhuma forma de carinho pois sou carente entretanto, honradas pedras, prefiro plainar a sentir o cheiro da sua frieza. Gostaria, talvez, de ter ouvido esta voz há mais tempo. Gostaria de poder agradecer a esta voz. Gostaria, juro que é a última vez que uso este verbo no futuro do pretérito, de dizer que meus 23 anos valeram a pena só por causa desses 3 segundos de queda. Ou de ápice.

2 comentários:

Fred disse...

texto escrito ano passado.

Flávia Naves disse...

obrigada Fred