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terça-feira, 24 de maio de 2011

O ator e o personagem

O ator é o personagem e o personagem é o ator.

Fiquei pensando que em um processo como este, uma divisão entre ator e personagem não existe.
Pensei isto a partir da conversa que a Flávia puxou na última sexta. Afinal, quais os limites entre o ator e o personagem? Quando o processo parte de um texto com personagens prontos, esta divisão é clara: o ator não forneceu material humano para a constituição do personagem, por mais que este mesmo personagem escrito possa ser interpretado de várias maneiras diferentes. De certa maneira, o ator recorre ao texto e seu ato de criação está confinado a certos limites dos quais não pode passar.
Porém, aqui, o ator cria o personagem a partir do processo. Fico pensando, e não sei se vocês concordam, que cada um dos personagens de vocês de certa maneira é uma parte de vocês. Não se trata de confundir um com o outro, mas de efetivamente ser o outro. Porque cada pessoa pode ser mil, cada indivíduo pode ser divíduo, a logica da unidade, quando se trata de pessoas, é extremamente frágil. Não somos sempre os mesmos. Em certos lugares, nos comportamos de uma forma. Em outros, de formas diferentes. E tem vezes que temos vontade de fazer coisas que não fazemos e fazemos coisas que não queremos.
O lugar do teatro parece ser essa libertação, ter um lugar onde possamos de certa maneira ser alguma coisa que não somos fora dali.
Fico pensando como cada um de vocês se identifica com o personagem que estão criando, e vêem neles uma pequena possibilidade da idéia de vocês mesmos. Não uma possibilidade boa, ou ruim, mas simplesmente uma possibilidade, ou seja, um possível que poderia não ser trazido à tona a não ser pela concretização corporal vivida ali, no palco.

Posso estar errado, mas é só um palpite.
Gostaria de saber: o que acham?

3 comentários:

Diogo Liberano disse...

não tem isso de estar errado
o q vc escreveu é bem o que estamos fazendo

agora
o dramaturgo entra como o cara que lança ao personagem aquilo que o ator provavelmente não teria escolhido ser.

é difícil bancar a diferença; muitas vezes os personagens são aquilo que os atores gostariam de ser... e um personagem, na minha opinião, não precisa ser necessariamente semelhante ao seu intérprete

obviamente que as individualidades dos atores nos servem totalmente... mas... não pode ser o ator fantasiado... ele precisa (my opinion) defender aquilo que não defenderia em vida... ele precisa bancar sua ficção.............

ih, papo longo

Marília Misailidis disse...

Oba!Que bem lembrado,Gustavo!
Essa questão surgiu mesmo sexta passada e é tão importante levantá-la...

Papo longo mesmo...

Penso muito sobre isso.

Não acho que quando o ator parte de um texto dado a divisão ator/personagem é clara,ou mais clara.E que quando o ator cria tem mais parte no personagem.

Concordo com a primeira colocação:"O ator é personagem e o personagem é o ator."

Me parece que sempre estarão ambos ali;o difícil é a negociação de que parte de quem devem ir juntas à cena.Em qualquer dos casos(tendo o texto dado ou tendo que criá-lo)acontecerá essa negociação.

Há aqueles atores que sempre filtrarão essa negociação com uma ótica que chamarei de "corporal",pois parecem ter sempre o foco voltado para os limites do corpo.Há os que chamaria de "existenciais",que parecem ter o foco voltado aos limites onde habitam as existências humanas...e tantos focos ainda a se descobrir...

Mas acredito que à sua maneira,cada um celebra no teatro a liberdade.A liberdade de escolher ressaltar uma parte em você que tem a ver com aquele tipo humano,a liberdade de comunicá-lá pessoalmente aos outros,como se juntos sondássemos:o que é ser humano?Como se vive dentro de um corpo?Como se morre todos os dias?Como se nasce?O que fazemos uns dos outros?

Quem busca o teatro,dentro ou fora do palco,acho que tem essas questões vivas dentro de si.

Eu,Marília,tenho mesmo por característica pessoal me importar muito com a casa onde moro e pessoalmente cuidar dela.Tenho uma relação viceral com a família e fui uma criança cuja a avó paterna(muito diferente da materna,que era envolvida no movimento sindical) aproveitava o tempo que tinha com a neta para ensiná-la a lavar,passar,cozinhar...para o seu futuro marido.Dona Carmem Lúcia,como ela se chama,tem uma caixa de convites de casamento para que eu possa me inspirar no momento de escolher como farei o meu...Isso tudo é tão a Rita dentro de mim.Dentro de mim,já dormiram de forma mais nebulosa as questões:Que vida é essa?Que sentido tem as coisas que faço todo dia?É isso que quero fazer para sempre?Me basta?

Aí começam as diferenças de Marília e Rita.A minha vida não é só minha casa,não tenho marido,sei que nunca consultarei a caixa de convites da minha avó...Como Rita adoraria consultar.Eu vi essas questões nascerem em mim,eu me propus a enfrentar cada uma radicalmente e sigo nessa luta.

Rita sente um incomodo que ainda nem tem nome.Vai ganhando forma com a perda da Lilla.

Vejo,dessa maneira,a importância da consciência do ator sobre o que ele fala.A coragem do ator e também a crueldade do teatro.Pois,que homem pode falar ao outro o que é um homem?

Que maneira Marília poderia falar de Rita se ela mesma não tivesse alguma consciência do lugar que Rita ocupa?Se ela não tivesse experimentado passar por lá?Não sei se realmente sozinha eu escolheria que minha personagem fosse dona de casa.É mesmo difícil bancar algo que eu escolhi,mas que na vida de Marília tem uma proporção diferente do que tem na vida de Rita.

Acho que quando o ator fala de algo pelo qual ele nunca passou nem perto,não tem experiência,consciência,nesse momento podemos ver um ator fantasiado.É um risco que todos corremos.Não quero dizer com isso que só podemos falar do que vivemos.Alguns inventam caminhos artificiais que funcionam muito bem.Apenas ponho mais lenha levantando algo que me parece ter sua importância.

Eu mal conheço Marília inteira,imagina Rita!Corro muito esse risco.Trabalho todo dia para que Rita possa existir em Marília e não para que Marília se fantasie de Rita.Vamos ver no que dá...

Acho tanta coisa...

Valeu a lembraça!

Flávia Naves disse...

boa discussão.
Diogo fala: muitas vezes os personagens são aquilo que os atores gostariam de ser.
Marília fala: não sei se realmente sozinha escolheria que minha personagem fosse dona de casa.....trabalho todo dia para que Rita possa existir em Marília e não para que Marília se fantasie de Rita.

Como defender uma parte de nós que não gostamos? Como defender um personagem que faz escolhas que não seriam as minhas escolhas? Gustavo fala: "nesse processo que estamos vivendo não existe divisão entre ator e personagem". Depois da conversa com os meninos do teatro Independente e também com a Miwa do teatro de Autônomo, penso o seguinte: não sei se de fato NÃO existe divisão entre ator e personagem, a questão é que isso pouco importa. Não é ficar tentando entender onde começa o meu personagem e onde termina o meu ator, as coisas se misturam mesmo e o trabalho que nós atores devemos fazer é entender onde em mim eu acesso aquilo que não é o meu lugar de conforto, e se o meu lugar de conforto, o lugar que com facilidade eu acesso servir ao personagem, como fazer para deixar essa parte sempre viva, sempre pulsando.
AS vezes caímos na seguinte cilada: Aquilo que é desconfortável a gente rejeita, naquilo que é fácil a gente assenta.
Trabalho....muito trabalho....