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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Chegando devagarzinho e sobre o atravessar

Olá para todos,
peço desculpas por invadir este espaço, que sei ser um espaço tão sensível e tão íntimo de todos vocês, que compartilham por aqui as mais variadas espécies de troca: intelectual, poética e afetiva, se é que é possível separá-las assim tão facilmente.
Se demorei tanto para fazer aqui minha primeira postagem, foi sem dúvida mais por cautela do que por falta de vontade. Na verdade, tenho lido tantas coisas que me fazem lembrar de vocês, e várias vezes tive vontade de transcrevê-las inteiras por aqui. Preferi, porém, antes disso, habitar este blog como uma espécie de fantasma, que vocês sabiam que rondava por aqui, mas não sabiam exatamente onde, nem quando, nem como.
Depois de fuxicar até não poder mais, decidi que estava na hora de dar as caras e de me fazer enfim, presente. Sinto às vezes me invadindo um espaço tão próprio de vocês, que não posso me permitir estar preservado, furtado em um olhar distanciado e alheio, e me coloco a partir de agora (se vocês me permitirem, é claro) aberto ao contato e a troca, colocando-me como elemento de agregação que não mais estará neste espaço apenas de forma contemplativa, mas também propositiva.
Não seria possível, nem recomendável, eu de uma vez transcrever ou falar de tudo que me faz lembrar de vocês, mas gostaria de compartilhar algo que me foi suscitado através da postagem da Flávia, sobre uma conversa com a Marília e com a Nina no final do último ensaio, que me levou a escrever sobre isso.
Vocês falavam sobre o mundo de hoje em dia, e sobre como era ruim atestar que vivemos em um mundo ainda marcado pelas injustiças, pelas desigualdades, pela falta de afeto e sensibilidade geral que preside a maioria das vidas humanas e como era pior ainda apenas reclamar sobre aquilo, falar mal, sem fazer nada a respeito, ou impossibilitados de fazer algo a respeito (o que fazer?)
O que penso é que uma forte característica desse mundo que vivemos é a proliferação de imagens em uma escala absurda. Os meios de comunicação diariamente noticiam guerras e exibem as fotos dos corpos ensaguentados e empilhados na primeira página. Mais recentemente, acompanhamos a espetacularização feita em cima do massacre de Realengo. Reconstituições da cena, depoimentos de pais inconformados, heroicização do policial que matou o tal assassino, fotos de sangue das crianças, acompanhamento dos enterros, enfim, todos os elementos para a constituição de um drama dos bons.
Apenas com um detalhe: a falta de sensibilidade. A falta do lado humano rege a conduta geral de uma sociedade que já não sabe mais ser atravessada. Muitas pessoas discutindo, lamentando, raivosas, mas com exceção dos familiares das vítimas e dos colegas que presenciaram o fato, nenhuma pessoa, nem entrevistadores, nem reporteres, nem governador, prefeito ou algum amigo que conheci foram capazes de chorar. Sim, chorar. Sofrer realmente, ser tocado, ser atravessado parece que não é tarefa simples nos tempos em que vivemos. A proliferação de imagens está associada a banalidade da morte. A desgraça, mostrada diariamente nos jornais e televisores, não mais nos coloca na posição de sensibilidade, atravessamento e simplesmente passamos e escapamos imunes.
Para vocês, a tarefa é outra. O lugar do teatro não é o lugar da mídia. Em lugar da espetacularização, a sensibilidade. O teatro pode não ser mais o lugar da catarse, mas é o lugar que coloca corpos em ação, onde o espectador e o ator se unem por um momento no sentido ritual, onde ambos comungam de uma certa sensibilidade e onde a experiência direta é a mais forte tradução de um acontecimento vivo.
Vocês não estão distanciados do que está acontecendo aí fora. Se existe alguma coisa que vocês podem fazer para melhorar este mundo, e eu acredito que o teatro tem esse poder, é simplesmente fazer jus ao nome deste blog: atravessar. A partir do momento em que assumem isto, que o lugar do teatro é o lugar do atravessamento, vocês estão fazendo a parte de vocês.
À essência do distanciamento midiático o teatro contrapõe o sentido de comunidade: "são corpos vivos que se dirigem a outros corpos reunidos num mesmo espaço. Parece que só isso é suficiente para fazer do teatro o vetor de uma sensibilidade radicalmente diferente da situação dos indivíduos sentados em frente de um televisor ou dos espectadores de cinema, sentados diante de sombras projetadas." A partir do momento em que recusa o distanciamento, o teatro chama e convoca, ele - e talvez como nenhuma outra expressão artística - tem o poder do agenciamento.
Vivemos em um mundo tão interconectado quanto dividido e nesse mundo, o teatro tem um papel, o de romper esta divisão e aproximar as pessoas de si mesmas.
Um beijo para todos vocês.

3 comentários:

Diogo Liberano disse...

gustavo
não tenho muitas palavras
prefiro continuar intrigado com tudo o que vc escreveu
me senti abraçado ao me lembrar de quando chorei sozinho no chão do meu banheiro lendo o jornal com toda a descrição da situação em realengo
tive medo de chorar
medo de manifestar em mim o horror expresso no jornal
e depois
entendi
era preciso doar meu corpo para que essa dor imensa - e nossa - pudesse acontecer
chorei bastante
me senti triste
e leve
para
fazer a nossa parte
vc a reconheceu
ATRAVESSAR
não queremos talvez todos os pontos para fazer um bom drama
queremos armar o terreno
e fazer durar este único segundo da mudança, do atravessar, do se deixar moer
PARA EM SEGUIDA
mover.................
OBRIGADO,
(a casa é sua)

Marília Misailidis disse...

Gustavo,bem vindo!

É muito bom te ouvir aqui também.

Lembro-me de um comentário inesquecível seu em sala.O dia em que você constatou a importância da primeira vez que se vê uma peça,pois a primeira é a vez que mais podemos nos emocionar.Nunca tinha pensado nisso dessa forma.

Fico feliz de te ver contagiado pela conversa que começou segunda e ainda reverbera por tudo e por todos nós.

Penso e repenso o que é ser um ator,o que representa o teatro.

A idéia da catarse é a que menos me toca.Acredito sim que o teatro é o lugar em que celebramos a vida.O lugar em que pessoas sedentas de troca ouvem-se,cheiram-se,emocionam-se juntas.A presença e a troca me parecem ser o verdadeiro alimento da vida.Se puder ajudar a entregar a alguém nossos atravessamentos me sentirei antes de mais nada aliviada e em paz comigo por constatar que a possibilidade de ouvir,tocar e ser tocada pelo mundo está viva,operante em mim e eu posso mostra-la a quem quer que seja,para que ele possa ou não acreditar,a despeito de toda exurrada que vemos na midia,que a vida pulsa.E se ele acreditar...ah,que vitória da vida sobre a insensibilidade e morte inútil nós assistiremos!Sobrevivo a qualquer coisa pra ver isso e para ajudar isso acontecer.Não sei se morreria por essa idéia,mas vivo por ela.

" Vivemos em um mundo tão interconectado quanto dividido e nesse mundo, o teatro tem um papel, o de romper esta divisão e aproximar as pessoas de si mesmas."

Sim,sim,sim,sim!
Beijão

Flávia Naves disse...

"Aproximar as pessoas de si mesmas"
quanta sensibilidade Gustavo, quanta alegria em tê-lo ao nosso lado. Eu esperava ansiosa por isso tudo que acabo de ler.
Fico feliz por você ter te tocado com a conversa que tivemos na segunda-feira, nossos corpos dançavam enquanto compreendiamos a beleza da comunicação, a comunicação que celebrava o encontro, que explodia a sinceridade e que nos permitia ser atravessados pela grandiosidade inapreensível que é existir e existir como homem. Comunicação que ali aconteceu tão diferente da comunicação midiática como bem você pontuou. Obrigada pelo carinho e pela sincera sensibilidade.