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segunda-feira, 4 de abril de 2011

cena um

Sala imensa de paredes vagas recém-pintadas a branco cor de morte. Os cinco amigos sentados ao chão resvalam, dispersos.

O CARA DO CELULAR – De qualquer forma é curioso isso, não? Essa palavra FREE num cotoco de cigarro. Sabem o que significa?

Ninguém responde.

O CARA DO CELULAR – Pra quem não sabe FREE significa liberdade, livre... A Lilla bem que podia ter ficado só no cigarro, né?

Silêncio profundo.

O CARA DO CELULAR – Se um de vocês tomar coragem e for até o quarto dela, vai ver, tá cheio de liberdade querendo se jogar pela janela!
A GAROTA DO CAMBALEAR – (se erguendo) Eu vou embora.
O CARA DO CAFÉ – Fica.
A MOÇA DO DEPOIS – Por que você não consegue calar a boca?!
A GAROTA DO CAMBALEAR – Eu não tô conseguindo.
O CARA DO CELULAR – Nem eu. É tudo culpa da Lilla. Ou vocês acham que esses cotocos de liberdade estavam na janela dela por acaso?
A GAROTA DO CAMBALEAR – A gente remarca pra outro dia.
A MOÇA DO DEPOIS – Não. Tem que ser hoje.
O CARA DO CAFÉ – Você tá insuportável, cara!
O CARA DO CELULAR – Isso é também culpa dela.
A MOÇA DO DEPOIS – Não, não é. Você sempre foi insuportável.
O CARA DO CELULAR – E só hoje isso te incomoda?
A MOÇA DO DEPOIS – É. Fica mais um pouco.
O CARA DO CELULAR – Sorte a sua é que daqui a pouco você vai estar ótima e distante. Como sempre foi.
O CARA DO CAFÉ – Não se aborrece com esse cara não.
A MOÇA DO DEPOIS – A hora que esse humorzinho barato acabar, você vai ver. Ele vai cair na real.
O CARA DO CELULAR – Eu já tô na real. Faz tempo. Você é que chegou no meio, pra variar, e tá querendo bancar a esperta.
A MOÇA DO DEPOIS – Você tá sendo mesquinho!
O CARA DO CELULAR – Do que você tá falando?
A MOÇA DO DEPOIS – Você tá reduzindo tudo isso a uma divisão de bens como se isso fosse algo importante.
O CARA DO CELULAR – Nem tô falando disso! Tô falando que se vocês tão se divertindo com esse sofrimento todo eu vou ter que pedir licença. Porque o que tava em jogo aqui era super simples. Era só dividir os pertences da Lilla e pronto. Se reencontrar, dar um beijo, fofocar, comer alguma coisa, saber como vocês estão, só isso.
A MOÇA DO DEPOIS – Saber como vocês estão. É só isso mesmo que tá faltando.
O CARA DO CELULAR – Por quê? Você não tá bem? Não tá satisfeita com os quadros cds e livros que você pegou pra você. Quer algo mais?
A MOÇA DO DEPOIS – Quero sim. Quero que você cale a boca. Desde a hora em que eu cheguei...
O CARA DO CELULAR – Ou seja, faz 3 minutos...
A MOÇA DO DEPOIS – Foda-se. Desde então você não parou de ofender todo mundo.
O CARA DO CELULAR – Eu tô tentando ser prático...
A MOÇA DO DEPOIS – Não confunda praticidade com grosseria.
A MOÇA DO CAMBALEAR – Meninos, eu vou embora.
O CARA DO CAFÉ – De jeito nenhum. Você fica.
A MOÇA DO CAMBALEAR – Eu não vim pra isso.
O CARA DO CELULAR – Veio pra quê então? Pra pegar uma cristaleira, levar a cama dela e ainda voltar pra casa com a barriga cheia?

O cara do café avança em direção ao cara do celular. A garota do silêncio profundo se levanta e vai em direção à cozinha. A moça do depois tenta interceptar a briga.

O CARA DO CAFÉ – Escuta só o que você tá falando!
A MOÇA DO DEPOIS – Pára, gente!
O CARA DO CELULAR – Vai me bater?!
O CARA DO CAFÉ – Cala a boca!
A MOÇA DO DEPOIS – Pára!
O CARA DO CELULAR – E nem tá bêbado!
O CARA DO CAFÉ – Escroto!
A GAROTA DO CAMBALEAR – (saindo) Foi bom ver vocês.
O CARA DO CELULAR – Mas é verdade!
A MOÇA DO DEPOIS – (segurando a garota do cambalear) Não! Você fica!
A GAROTA DO SILÊNCIO PROFUNDO – (voltando da cozinha, afastando os amigos que brigam e gritando exasperada) Cala essa boca! Você tá proibido de falar! Você encontrou uma forma de se sentir bem, mas não percebe que pra isso você tá pisando em cima dos seus amigos. Que covardia é essa? Cala essa sua boca! Vai pro um canto qualquer, senta e chora, grita, pede ajuda, agora não fica fingindo que tá tudo maravilhoso porque não tá! Você tá bancando o maioral só pra se convencer de que é capaz de dar conta da própria vida sozinho quando na verdade tá estampado na sua grosseria que você tá perdido, que você tá morrendo por dentro, sem saber como se faz pra aguentar tanta dor, sem saber mais qual remédio comprar ou qual médico pagar pra dar conta de uma coisa que não tem solução porque simplesmente não tem. (Após uma pausa) Tá todo mundo na mesma merda e qual é o problema em se reconhecer igual à gente? Tem alguém aqui, além de você, fazendo força pra parecer bem? Porque se tiver, se você encontrar, então ai sim você abre a boca. Porque de repente essa pessoa pode ajudar a gente a sair desse buraco.

O cara do celular emudece, enfim. A garota do silêncio profundo volta à cozinha.

O CARA DO CAFÉ – Vamos comer?
A GAROTA DO CAMBALEAR – Talvez seja melhor abrir um vinho antes.
O CARA DO CAFÉ – E fazer um brinde a esse encontro que demorou mais tempo do que deveria pra acontecer.
A GAROTA DO CAMBALEAR – Eu estava com saudades. Com medo. Ansiosa.
O CARA DO CAFÉ – Por que medo?
A GAROTA DO CAMBALEAR – Sei lá... De encontrar vocês assim... Como se fala? Bom, desse jeito como tá sendo. Perceber que ninguém tá bem depois de tudo.
A MOÇA DO DEPOIS – Mas ninguém tá bem mesmo. A começar por ele, por você, por mim, por você e por ela. Mas é pra isso que estamos aqui. (Após uma pausa) Pra além dessa discussão ridícula e absurda, pra além desse apartamento vazio, só faltava resolver o que fazer com as coisas dela. E depois disso tudo, só ia sobrar a gente mesmo.

A garota do silêncio profundo retorna.

O CARA DO CAFÉ – Hora de comer?
A GAROTA DO SILÊNCIO PROFUNDO – Não deu. Queimou.
A MOÇA DO DEPOIS – Mentira?!
A GAROTA DO SILÊNCIO PROFUNDO – Me desculpem, eu me distraí.
A GAROTA DO CAMBALEAR – Eu posso improvisar algo, vocês querem?
A MOÇA DO DEPOIS – Não precisa.
O CARA DO CAFÉ – Vamos abrir um vinho. (Chamando a atenção do cara do celular) Ei, vai buscar um saca-rolha na cozinha.

O cara do celular, meio relutante, cede e sai em direção à cozinha.

O CARA DO CAFÉ – Sabe se eles vão vender esse apartamento?
A GAROTA DO SILÊNCIO PROFUNDO – Você não estava com fome?
A MOÇA DO DEPOIS – Já venderam. Por isso a urgência em tirarmos tudo daqui.
A GAROTA DO CAMBALEAR – Eu prefiro ficar bêbada ao invés de gorda.
O CARA DO CELULAR – (retornando) Não tem saca-rolhas. Não tem quase nada naquela cozinha. Nem comida. Vocês têm certeza que a gente vai ficar preso nesse apartamento falando da Letícia sem nem ao menos comer alguma coisa?
A MOÇA DO DEPOIS – Bom, se a gente não pode ter você calado o tempo inteiro, talvez você mereça passar fome o resto da noite. Por mim tudo bem: eu me sinto bem se estiver só na companhia de vocês. Nada novo, afinal.

>> atenção. cena para trabalho em sala de ensaio. decorar. usaremos na quarta. levem os objetos conforme havia sido solicitado <<< (vítor, tenho uma versão impressa pra ti).

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