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sexta-feira, 1 de abril de 2011

ensaio 08

01/04, unirio, sala 301
diogo, dominique, flávia, fred, marília, nina, vítor e gustavo.

marília chegou dizendo o nome de sua personagem: rita. não que eu saiba se será este nome, mas, está ai uma proposta bem concreta. disse a ela que rita é o nome de uma personagem que escrevi num monólogo e que se suicidava ao término.

alguém tem alergia às pelúcias da Lilla.

meninos, eu estou me perguntando aqui uma parada que gostaria que vocês pensassem com muito empenho:

como é que a personagem de vocês acha ser possível mudar alguma coisa no mundo?

quando vocês se abraçam sobra sempre um sem abraço porque Lilla não há mais.

ciranda. a-do-le-ta. (adoro quando se desentendem no jogo. acho que eles sorteiam algo da amiga fazendo um jogo estúpido desses). meu deus eu tô chocado com o jogo do salto para pisar no pé. é muito bom. imaginei Lilla jogando esse jogo com salto alto.

cosquinha é o auge do arriscado. montinho humano é mais perigoso, devo dizer.

atenção: a partir dos próximos ensaios, vamos começar a trabalhar com a repetição. ela nos serve como costura, de linguagem, de gestos, de tempo, de ações, de falas, de estados. repetir uma dessas coisas é saber que ela se perdura no tempo da peça. é uma forma de estabelecer keyframes. a repetição é um jogo invisível. não serve – em nossa caso – para percebermos que algo foi repetido. não para isso.

IMPROVISAÇÃO 10h15

Vítor entra primeiro. Olha o teto do apartamento. Depois Marília chega e eles não se cumprimentam. Depois quem chega é Fred que prontamente abraça Vítor e o beija, fazendo o mesmo em seguida com Marília. Eles se aproximam lentos, de mãos dadas, vão até à janela e dela desviam o olhar. Vítor finalmente abraça Marília. Fred, no parapeito da janela, joga uma folha e acompanha sua queda. Silêncio profundo entre eles. Vítor e Marília se lançam ao chão e Fred os olha com certo estranhamento. O olhar perdido.

Dominique – (vindo da cozinha) Ei, gente, vocês tão ai eu tava na cozinha preparando algo pra gente comer.

Vítor se senta no parapeito da janela.

Fred – Curioso isso aqui. Essa palavra FREE num cotoco de cigarro. Sabe o que é? Liberdade, livre… Nada é por acaso.
Dominique – Vamos parar de fazer poesia.
Fred – Você não alcança? Se você não alcança levanta a mão que eu te explico.
Marília – Tá tudo na cozinha?
Fred – Ajuda ela lá, Vítor.
Vítor – Tá.

Dominique e Vítor se abraçam.

Nina chega depois de todos e dá um tchau. Fred e Dominique a abraçam efusivamente.

Fred – Eu queria os quadros, a cristaleira, os vinhos. Eu quero tudo isso.
Marília – Eu quero a cristaleira.
Nina – Fred, divide o vinho com os amigos.
Marília – A gente pode falar disso depois?
Fred – Não, a gente veio aqui pra isso.
Nina – O apartamento já tá todo vazio, só falta isso.
Fred – Então vamos comer.
Dominique – Penne ao molho pesto.
Fred – Se vocês não quiserem esse sofá eu também quero.
Marília – Ah, Fred, é quem chegar primeiro que escolhe?
Nina – A gente decide depois de comer.
Fred – Cada um tem um perfil. Nina, você poderia ficar com os livros. Você com a máquina de escrever, Vítor. Eu fico com o laptop. Marília não precisa ficar com nada porque não tem perfil definido.
Nina – Não tem perfil e ai não ganha nada?
Vítor – Vamos abrir um vinho.
Fred – Eu gostaria de abrir esse vinho numa data especial.
Dominique – Não é especial?
Fred – E o trabalho, gente, como tá? Como tá, Dodô?
Dominique – Tá tudo bem.
Fred – E você, Vítor?
Vítor - Tudo bem.
Fred – Marília não trabalha.
Nina – Caramba, eu tinha esquecido como você é chato.
Fred – Como estão com os filhos, Marília?
Marília – Estão ótimos. O Caco também. E Spyke também, aquele cachorro cresceu muito.
Fred – E você, Nina? Estudando o passado ao invés de pensar no futuro?
Marília – Ei, Dodô, vem ver isso aqui. Cheiro estranho. É assim mesmo?
Nina – E você, Fred, anda fazendo muita continha? E a tabuada, tá sabendo?
Vítor – Dodô, tô com fome, Dodô!
Marília – A gente põe um pouquinho disso aqui…
Dominique – Então, gente, queimou.
Fred – Vamos pedir de um restaurante, eu ligo, eu pago.
Dominique – Ela tá colocando uma pomarola fora da validade.
Marília – Nada demais, gente. Eu comi isso outro dia.
Nina – Fred, vai comprar alguma coisa pra gente comer.
Vítor – Gente, ele tá incrível. Não tem jeito. Esse cara tem uma cara tão de safado que não dá nem pra ficar com raiva de você. Terminou o namoro, tá tudo bem?
Marília – E a empresa lá?
Fred – Tá bem. Troquei de carro.
Vítor – Ganhou dinheiro?
Fred – Muito.
Nina – Ah, Fred, chega. Tá namorando?
Dominique - Deve ser difícil. Namorar o Fred.
Vítor – E o que que muda?
Fred – Muda que o porteiro foi comprar caviar ao invés da gente comer miojo.
Nina – Como que a gente vai fazer com essa divisão?
Fred – Minha querida, esse sofá vai caber no seu conjugado?
Vítor - Vou te dar umas porradas, cara. Tá demais hoje.
Dominique – A gente podia ligar um som.
Fred – Ah, gente, cansei de MPB agora só ouço música francesa.
Vítor – Ninguém fez café?
Dominique – Tá na cozinha.
Nina – Eu faço.
Dominique – Mas tá frio. Eu fiz quando cheguei.
Fred – Será que eles vão vender esse apartamento?
Nina – Não, vão entregar.
Marília - A gente tem que ver o que cada um vai levar.
Nina – Eu acho que vou levar uns quadros.
Fred – Eu falei que ia levar os quadros.
Nina – Fred, você tá indo num médico, psicólogo, psiquiatra?
Fred – Não, não, eu tô tentando outro tipo de tratamento.
Nina – Confia em mim, você tá sem noção.
Fred – E você, Dodô? Devia descansar um pouco mais. Olha essas olheiras.
Dominique – Gente, fita do aniversário de 15 anos da Lilla.
Nina – Eu não quero ver isso.
Fred – Bota, pra gente ver como a gente progrediu.
Vítor – É só dar um poderzinho que a gente conhece o ser humano.
Fred – Álbum de fotos.
Nina – Que que é isso? Uma sessão de tortura?
Vítor – Isso foi carnaval?
Nina – Você tá fantasiada de quê?
Dominique – Eu não sei. Foi uma coisa meio de última hora.
Vítor – A gente tava de MIB.
Fred – Lembra que eu fiz uma piada racista do tipo: eu acho que eu vou pelado.
Nina – Mas essa borboleta que a Lilla tava! Eu achei na garagem e quando ela viu ela ficou louca “Ah, a borboleta!”
Fred – Você ainda costura?
Marília – De vez em quando eu faço alguma coisa.
Vítor – Você paga propina?
Fred – Vítor, eu não vou ser sincero com você, você é jornalista.
Vítor - Você paga propina?
Fred – Quando você tá com seu baseadinho no bolso…
Vítor – Eu não fumo maconha.
Fred – E eu não pago propina.
Vítor – Como a gente mudou, né?
Nina – Vítor, levanta, pega o que você quer e coloca aqui no meio da sala.
Vítor – Eu só quero aquele quadro do Van Gogh.
Dominique – Eu quero ficar com alguns cds.
Nina – Eu vou levar esses dois quadros e os livros.
Dominique – Os livros.
Fred – Então eu posso ficar com o sofá? Porque ninguém falou que quer, mas quando eu falar que quero todo mundo vai querer.
Nina – Pode, Fred. Os quadros que eu queria eu já peguei. O da menina e o do cavalo.
Fred – Marília, leva os livros da Sydney Sheldon pra você.
Nina – Leva os do Jorge Amado que eu não gosto.
Nina – Café. Cada um pega o seu? Eu vou pegar o meu.
Fred – Pega pra mim.
Nina – Não. Pega você. Vítor, abre um vinho pra gente. O melhor de todos.
Fred – Vamos apostar.
Nina – Aposto que você não consegue ficar calado até o fim do dia.
Fred – Apostado.
Vítor – Tô escrevendo muito. Terminando mestrado.
Nina – Especialização em quê?
Vítor – Segurança pública.

11h15.

 

DÚVIDAS

Ela morava com o pai, a mãe e o irmão?

 

SOBRE AS FUNÇÕES DAS PERSONAGENS

VÍTOR / Foco objeto jornalista que denuncia presença da ausência;

DOMINIQUE / Eu fiquei surpresa, achei inusitado, nada a ver, talvez a palavra seja engraçado. Fiquei tentando pensar proximidades. Propor soluções para dialogar com o mundo? Alimentação. Algo primordial para a existência. Tal qual um artista. Cora Coralina: a culinária é a melhor arte, pela comunicação direta de quem cria com quem recebe.

MARÍLIA / Dona de casa, casada e sustentada pelo marido. Talvez venda Avon e esteja a procura de si mesma? Seria depressiva. Ela não é depressiva. Chega de confundir tristeza com depressão. Talvez esta seja apenas a primeira forma que aprendeu a cuidar de si e de quem ama. Intui que a vida é mais e quer esse mais. Vai para esse mais no seu tempo. Tem máquina de costura. Sua comida cheira bem e é apetitosa. Seu marido é Caco, de Carlos.

FRED / Surpreso. Achava que as coisas estavam se encaminhando para eu ser um artista. Trabalhar um ator do dragão. Acho justo e acertado ser justamente a Lilla, artista e que se matou. A situação financeira, ele tem mais dinheiro que os outros. O cara do celular virou o cara do blackberry. Os números a ciência exata talvez ele fale em estatística e das leis da física para explicar a morte. A gravidade da lei da gravidade. Não dá para estereotipar. Os discursos devem e podem convergir. É a morte, a culpa, a vida, a falta de compreensão ou a falta de coragem, é a ausência? Se ele foi domesticado durante 24 anos porque só agora eu me perguntei como cavalgá-lo.

NINA / Objetividade, ver para frente e adiante. Não é que olha pro passado. Observa uma relação de causalidade das coisas. Observação. Não para o futuro nem prático nem resoluto. É uma pessoa que não tem nenhuma estrutura emocional, muito afastada dos amigos e não quer abrir isso. Fica cravada num posto para não ficar flutuando por ai para não ficar passeando junto com as coisas, como um lenço.

 

PESQUISA DE CAMPO > entrem em campo, literalmente.

2 comentários:

Fred disse...

DRAMATURGIA.

Marília Misailidis disse...

Na improvisação de sexta senti que estava em um quarto e sala de alguém que morava sozinha...mas me pegou a questão do Di sobre o que seria mais verossímil.

Minha personagem sente que poderá mudar o mundo se puder mudar a si mesma.Se ela atingir chegar na vida que gostaria de ter vai propagar o exemplo em seu entorno de como gostaria que as coisas fossem.Mas acho que tem medo de arriscar ir contra a maré.Ela vê um mundo muito diferente desse como conhecemos hoje.Acho que tinha esse olhar em comum com Lilla.

Fiquei pensando que quando ela entro no apartamento o que explodiu nela e a fez ir ao chão foi ver uma antiga foto de todos eles fixada,solitária,na parede ao lado da cama dela.Como se aquela fosse a última imagem que ela via todos os últimos dias antes de dormir e assim que acordava.