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sábado, 20 de novembro de 2010

Re: reverso

Me movo de ponta a cabeça no reverso das horas dos dias. Assim como esse outro que pela porta da frente chegou sem que eu autorizasse tamanha ousadia. Suas palavras carregadas de mistério e exuberância acariciaram meu rosto cor de susto num breve instante de um possível repouso. Enternecida, extasiada, quase pude acreditar que o calor de um colo amigo me devolveria a capacidade de figurar entre as pessoas e que a vida então me readmitiria no seu escritório-vida-social e eu poderia tomar meu picolé enfiando-o inteiro na boca e em seguida tirando-o inteiro da boca e que alternando entre tirar e colocar o picolé da boca esse meu gesto pudesse ser visto como simples celebração de um gostoso acontecimento e não como um ato perversamente libidinoso. Engano meu. Olhei no espelho e vi que os papéis da demissão estão estancados na minha testa e por onde quer que eu vá o estigma da exclusão me acompanha exalando seu cheiro fétido e pintando as marcas do meus pés no chão de cor vermelha. Não tenho direito de exigir coisa alguma apenas de seguir vivendo e de preferência silenciosa e transparente para que nenhum gesto meu perfure o limite do outro e nenhuma palavra minha fira o decoro.
Porque é isso. Aconteceu um dia. Minhas palavras desencontraram o bom senso e meus gestos ultrapassaram o significado. Já não pude mais seguir. Parei no meio do caminho atravessada por uma insistente pergunta: como é possível? Mas...como é possível?

5 comentários:

Vitor disse...

Gosto muito.

Galera tava pensando na brincadeira dentro da dramaturgia com ficção realidade, ficçao dentro da ficçao. (personagens dentro de personages, como dito no encontro passado), enfim de um bate papo me veio isso muito forte, queria dividir. talvez ja tenham ate dito isso ou talvez possa nascer uma ideia. é.

Vitor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vitor disse...

Ah! to lendo o "UIVO", do Allen Ginsberg e é absurda a lucidez terrivel da geraçao e companheiros dele. Foram literalmente atravessados na pratica e nao foram em vao. Alguns pagam na carne viva pra que outros recebam. Mas a memoria do povo é curta. E os que morreram, foda-se, morreram.

Flávia Naves disse...

Vítor, quero saber mais dessa geração do Allen, sobre esses companheiros e suas ações no mundo. se puder postar um trecho do livro ou alguma coisa que você acha relevante vai ser ótimo. beijos

*Vendetta* disse...

O Uivo é dos mortos, Fred. é a voz dos mortos. eu acho